por Fausto Junior

Diante da efervescência política que o país tem vivido há mais de um ano, em capítulos eletrizantes que superam as emoções de séries e filmes de ficção, resolvi fazer uma lista de cinco (apenas cinco) filmes de teor político que me vêm a memória de imediato. Na verdade, qualquer filme, qualquer obra ou modo de agir (ou não agir) representa sempre um posicionamento político.

Este cinco filmes não têm relação direta com a nossa atual crise política, mas é possível encontrar um elemento ou outro capaz de dialogar com o nosso cenário de 2015/2016. Uma diversão extra é justamente tentar comparar personagens e situações, ainda que sejam contextos bem diferentes e no meio do caminho a linha de comparação se perca totalmente.

Lembrando que esta é a minha lista de filmes neste momento. Evitei colocar os que falam sobre o golpe de 1964 por ser referência que já tem sido bastante mencionada. Caberia uma lista só com esse tema.

Apenas cinco filmes. Muitas outras listas podem ser feitas com diferentes recortes.  Quem quiser fazer sua lista também ou indicar mais um ou outro filme, sinta-se à vontade. Vamos à lista:


Danton – O Processo da Revolução

Danton – O Processo da Revolução
Danton | França, Polônia e Alemanha Ocidental | 1983 | 136 min
Direção: Andrzej Wajda

 

dantonNa primavera de 1794, Danton (Gérard Depardieu) retorna a Paris e constata que o Comitê de Segurança, sob a incitação de Robespierre (Wojciech Pszoniak), inicia várias execuções em massa. O povo, que já passava fome, agora vive um medo constante, pois qualquer coisa que desagrade o poder é considerado um ato contra-revolucionário. Nem mesmo Danton, um dos líderes da Revolução Francesa, deixa de ser acusado. Os mesmos revolucionários que promulgaram a Declaração de Direitos do Homem implantaram agora um regime onde o terror impera.

Confiando no apoio popular, Danton entra em choque com Robespierre, seu antigo aliado, que detém o poder. O resultado deste confronto é que Danton acaba sendo levado a julgamento, onde a liberdade, a igualdade e a fraternidade foram facilmente esquecidas.

 

Sem me prolongar em comentários, pincei apenas duas frases:

1) Enquanto aguarda o final do julgamento, cujo veredicto já estava decidido, um dos acusados comenta: “O processo é politico, e a política tem uma mecânica que nada tem a ver com a justiça.”

2) Durante o tribunal, Danton conclui seu discurso de defesa dizendo: “O povo só tem um inimigo perigoso. O governo.

Vale lembrar que o filme, dirigido pelo mestre polonês Andrzej Wajda, foi lançado 6 anos antes da queda do Muro de Berlim. Outra observação que não posso deixar de fazer: o ator Wojciech Pszoniak, que interpreta Robespierre, é ou não é a cara de Michel Temer? Tem alguma coisa que lembra pelo menos (foto no topo).

 


O Homem de Mármore

Não é por acaso que boto na lista outro filme de Wajda: O Homem de Mármore, que vi pela primeira vez na sala Walter da Silveira há mais de 30 anos (acho que a Sala Walter nem tinha esse nome ainda). Lembro que me impactou ver representado naquelas 2h45min todo o processo de se fabricar heróis (para descartá-los logo que deixam de ser úteis).

Regimes políticos, sistemas econômicos, reportagens, campanhas publicitárias, campanhas militares, revoluções. Todos precisam personificar seu ideais ou objetivos, todos precisam buscar ou inventar um personagem que represente suas ideias.

O Homem de Mármore
Czlowiek z marmuru| Polônia | 1977 | 165 min
Direção: Andrzej Wajda

 

homem-de-marmoreEm 1976 a jovem cineasta Agnieszka (Krystyna Janda) está produzindo seu trabalho de conclusão do curso, um documentário sobre Mateusz Birkut (Jerzy Radziwilowicz). Um pedreiro que na década de 1950 tornou-se herói do proletariado e acabou ganhando uma estátua de mármore em sua homenagem.

Com acesso a imagens da época e entrevistas com outros personagens e testemunhas, ela consegue várias novas informações sobre o caso. O conteúdo do filme chama a atenção do governo socialista, que logo passa a ameaçar o desenvolvimento do projeto.


 

Queimada!

Seguindo a mesma linha de “como fabricar um herói e descartá-lo em seguida”, coloco na lista outro filme inesquecível: Queimada!, dirigido por Gillo Pontecorvo, o mesmo que realizou o antológico A Batalha de Argel (1965).

Veja neste link três textos do crítico de cinema Luiz Zanin sobre estas duas obras e também uma entrevista com Pentecorvo.

Queimada!
Burn! | Itália | 1969 | 112 min
Direção: Gillo Pontecorvo

 

queimadaNo século XIX escravos de plantações de cana-de-açúcar na fictícia ilha de Queimada, no Caribe e sob domínio português, estão prontos para transformar sua miséria em revolta. O agente britânico William Walker (Marlon Brando) é enviado ao local com a missão de apoiar esta rebelião. A partir daí o novo governo estaria livre para estabelecer o comércio açucareiro com a Coroa Britânica.

O líder a quem seria oferecido o apoio inglês é executado, o que força Walker a buscar um plano B. Ele identifica no inocente e bravo carregador de malas José Dolores (Evaristo Márquez) potencial para assumir a função de liderar os revoltosos.
Dolores liberta a ilha do colonizador lusitano, mas sua incapacidade administrativa leva-o a entregar o poder ao grupo afinado com os interesses que Walker representa.

Dez anos depois, Dolores lidera uma guerrilha no interior de Queimada. Walker é enviado outra vez ao local, agora com a missão de caçar e exterminar o líder que ele mesmo criara.  

 

Luiz Zanin comenta:
“Brando vive à perfeição aquele seu tipo aristocrático, blasé, calculista, cujo fundo humano existe mas tem de ser escavado à exaustão para vir à tona. O José Dolores, de Evaristo Marquez, cresce, tem curva dramática, e passa da inocência à compreensão de um processo que é maior do que ele. É evidente que os dois gostam um do outro, assim como é evidente que estão destinados a tornar-se inimigos. E também por razões que vão além de suas vontades pessoais.”

“Em Queimada está em cena não uma representação de fatos históricos, mas o próprio modo de funcionamento da História.”

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Todos os Homens do Presidente

Não ia entrar na lista, mas quando o assunto é grampo esse é um título que não pode faltar (chegou a ser citado na Lava Jato – ou Vaza Jato). Sua presença sinaliza também a determinante participação da imprensa, ainda que no nosso cenário Brasil 2016 o chamado 4º Poder se assemelha muito mais ao que é apresentado em outro filme norte-americano produzido no mesmo ano, Rede de Intrigas (o próximo da lista).

Em Todos os Homens do Presidente há uma frase que se tornou famosa. Acontece numa das mais importantes cenas do filme, quando o jornalista Bob Woodward (Robert Redford) retorna a uma garagem deserta para encontrar-se com sua principal fonte, um homem misterioso que a dupla de repórteres apelidou de “Garganta Profunda” (“Deep Throat”), o título de um filme pornográfico que fazia muito sucesso na época.

O “Garganta Profunda” conclui a conversa aconselhando ao jornalista: “Siga o dinheiro” (follow the money). Ou seja, em esquemas de corrupção o dinheiro deixa rastros que muitas vezes levam até os altos escalões do poder.

O Mestre em Comunicação Social pela UFMG Adriano Oliveira escreve sobre o filme:

“O jornalismo exemplificado no filme é de uma ordem um tanto rara em nossos dias. Podemos dizer, de maneira jocosa, que as notícias correm atrás dos jornalistas hoje, mas Bob e Carl foram buscar notícias onde ninguém as via e onde nem sabia que poderiam ser encontradas. As redações atuais acabam apenas por remodelar informações que chegam por meio de press-releases e agências de notícias, dando-se ao trabalho da reestruturação textual apenas. Da mesma forma, a articulação do jornalista com as fontes não é arbitrária ou casual, mas pode-se dizer que já se espera algo de quem se entrevista. Assim, é mais confortável o uso de fontes oficiais, institucionais, por exemplo, pois são seguras e têm sempre a dizer aquilo que se espera para se elaborar um bom texto.”

Veja texto completo:
Todos os homens do presidente: Uma aula de jornalismo contemporâneo.

Todos os Homens do Presidente
All the President’s Men | EUA | 1976 | 138 min
Direção: Alan J. Pakula

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todos-homens-do-presidenteEm 1972, cinco homens são flagrados ao invadirem a sede do Partido Democrata, localizado no Edf. Watergate, em Washington.

Dois repórteres do Washington Post, Bob Woodward (Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman) dão início a uma obstinada investigação que revela uma ampla rede de espionagem política e lavagem de dinheiro. O caso atinge escalões mais altos do governo, levando à renúncia do então presidente re-eleito dos Estados Unidos, Richard Nixon.

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Rede de Intrigas

O filme é considerado profético ao expor de forma crua e irônica a chamada globalização que estava chegando, onde as corporações estão acima de Estados e nações, reunindo negócios, política e religião em volta do deus mercado.

Numa cena o dono da CCA, Arthur Jensen, (um conglomerado que está fazendo transações com os árabes) faz um sermão para o apresentador Beale compreender a nova religião global e que ele deverá ser o seu maior profeta:

Arthur Jensen – Você é um homem velho… que pensa em termos de nações e pessoas. Não existem nações. Não existem pessoas. Não existem russos. Não existem árabes. (…) Só há um sistema holístico de sistemas! Um vasto e imanente, interligado, interagente… multivariante, multinacional domínio de dólares! Dólares petrolíferos, eletrodólares, multidólares. É o sistema internacional da moeda corrente… que determina a totalidade de vida neste planeta. Não há América. Não há democracia. Só há IBM e ITT… e AT&T… e Du Pont, Dow, Union Carbide… e Exxon. Essas são as nações do mundo de hoje. (…) Nós não estamos mais vivendo num mundo de nações e ideologias, Sr.Beale. O mundo… é um colegiado de corporações… inexoravelmente determinado… pelas leis imutáveis dos negócios. Um mundo perfeito… não haverá guerra ou fome… opressão ou brutalidade. Uma vasta e ecumênica “companhia-mãe” pela qual todos homens irão trabalhar para servir a um lucro comum que proverá todas as necessidades e tranqüilizará todas as ansiedades… E eu escolhi você, Sr.Beale… para pregar esse evangelho…

Beale – Por que eu?

Arthur – Porque você está na televisão, idiota!

Há uma cena também que lembra muito os panelaços.

Rede de Intrigas
Network | EUA | 1976 | 121 min
Direção: Sidney Lumet

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network_rede-de-intrigasSátira ao poderio da televisão e sua capacidade de criar e desfazer mitos. O âncora Howard Beale (Peter Finch) recebe a notícia de que está demitido devido aos baixos índices de audiência do telejornal que ele apresenta. Indignado, Beale anuncia ao vivo que vai se suicidar em frente às câmeras no seu último dia de trabalho.

Com o súbito aumento da audiência pela expectativa de suicídio, a ambiciosa diretora de programação Diana Christensen entra em confronto com o veterano Max (William Holden) e decide criar o “The Howard Beale Show” onde Beale poderá extravasar toda a sua raiva contra o establishment. Ele se torna a sensação do momento como “O Profeta Louco das Ondas de TV”. A salvação financeira da emissora. Por trás da imagem de espontaneidade, a emissora continua a manipulá-lo de acordo com seus interesses.  

“Rede de Intrigas é uma denúncia sarcástica e certeira do jornalismo televisivo. Premiado com quatro estatuetas do Oscar, ainda pulsa com ‘uma combinação sempre rara de vitalidade e verve provocadora’ (Los Angeles Times). Faye Dunaway, William Holden, Peter Finch e Robert Durvall são os astros deste retrato impiedoso da exploração da mídia televisiva.”


As Mãos sobre a Cidade

Êpa! Com esse já são seis filmes! Considere então como um bônus.
Segue texto de Luiz Zanin:

“As Mãos sobre a Cidade é um clássico de denúncia da especulação imobiliária e uma reflexão madura sobre a corrupção política e seus elos com o empresariado. A cidade é Nápoles, devastada por empreendimentos imobiliários predatórios. Durante a demolição de um velho prédio, que deve ceder lugar a outro imóvel mais novo e rentável, uma parede desaba, matando dois homens e ferindo gravemente um menino. Edoardo Nottula (Rod Steiger), o dono do canteiro de obras, deveria ser responsabilizado, mas ele possui poderosas alianças políticas.

Nottula, no entanto, não deveria se fiar tanto em sua rede de amizades, porque a política é dinâmica, como se diz. Hoje você tem apoio, amanhã, se o vento virar, pode não ter mais. Ainda mais quando há um processo eleitoral próximo e as aparências de moralidade e interesse pelo povo precisam ser mantidos a todo custo.

À sua maneira incisiva e jornalística, Rosi sabe que o maniqueísmo ou a caricatura não levam a parte alguma. Só convencem aos convencidos de antemão. Por isso, procura conduzir a narrativa como uma investigação, fria e racional, na qual a paixão aparece episodicamente, mas sem perturbar o andamento do raciocínio. Importa-lhe, sem didatismo, desvendar um modo subterrâneo de funcionamento social da política, para que todos a conheçam e possam defender-se, dentro da pequena margem de manobra concedida aos cidadãos. Por isso, à clássica advertência final de que “’todos os fatos e personagens envolvidos são ficcionais‘”, Rosi ajunta um “’mas as condições sociais que tornaram a história possível são verdadeiras.’”
(veja texto completo)

As Mãos sobre a Cidade
Le mani sulla città | Itália | 1963 | 110 min
Direção: Francesco Rosi

 

maos-sobre-a-cidadeEm Nápoles, a um mês das eleições municipais, a parede de um um prédio em um canteiro de obras, cujo dono é o empreiteiro e vereador Edoardo Nottola (Rod Steiger), desaba, mata duas pessoas e desabriga centenas de moradores vizinhos ao empreendimento.

O vereador oposicionista De Vita (Carlo Fermariello) inicia um inquérito sobre a possível ligação de Nottola com o acidente. Enquanto os companheiros de partido do vereador investigado o abandonam, o prefeito consegue evitar a debandada do partido dizendo: “Na política, indignação moral é uma mercadoria sem valor. O único pecado mesmo é perder o poder.”  

 

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