Para marcar este 8 de março, Dia Internacional da Mulher, trago o nome de uma pessoa pouco conhecida, mesmo entre os que atuam e pesquisam o cinema. Um nome que foi praticamente apagado da história simplesmente por ser mulher: Alice Guy, a primeira pessoa (não a primeira mulher, mas a primeira pessoa) no mundo a utilizar o cinematógrafo (patenteado pelos irmãos Lumière) para realizar filmes de ficção.  Atributo que durante décadas foi dado a Georges Méliès, e agora começa a ser revisado.

Além de ter sido “a primeira pessoa que explorou os recursos narrativos do cinematógrafo; a inventora dos filmes de ficção“, “foi pioneira no uso de efeitos especiais (Méliès nunca ocultou sua influência), introduziu os primeiros fundamentos da técnica de montagem cinematográfica e sincronizou* antes de todos o som de um gramofone com as imagens (dando assim o primeiro passo para o caminho que levaria à chegada do cinema sonoro). (El Periódico, 2017).

*Outras matérias falam em experiências com a sincronização de som e imagem através do Chronofone, patenteado pela Gaumont.

Se ainda acha pouco, Alice Guy foi também pioneira na produção de filmes coloridos (que eram pintados manualmente, e

“trouxe em seus filmes temáticas não apenas variadas, mas também ousadas. Discussões sobre raça, gênero, sexualidade e nacionalismo foram presentes em suas obras. Com essa postura, ela é apontada hoje não apenas como peça chave de um Primeiro Cinema e como a primeira mulher diretora, mas também como uma realizadora à frente de seu tempo. Com “A Fool and His Money” (1912), por exemplo, foi um dos primeiros diretores a trazer um elenco afrodescendente num filme. Já com “Les Resultats du Feminisme” (1906), as relações de gênero são abordadas de maneira cômica, mas ainda assim crítica.”

Suzy Freitas, 2015, “Os Filmes de Alice Guy-Blaché“, para o Cineset.

http://bit.ly/2FbJ2Z1

Segue um texto de Barbara Sturm publicado na Folha de São Paulo em 2017 e alguns links para outras matérias e fontes de informação sobre a pioneira Alice Guy.

Fausto Junior


 

Alice Guy-Blaché, pioneira do cinema

Barbara Sturm

Folha de São Paulo, 25 jul 2017

Alice Guy-Blaché realizou o primeiro filme narrativo da história do cinema em 1896. No ano seguinte ela se envolveu na produção de 16 trabalhos e em 1900 foi diretora de produção de 51 curtas-metragens. Mas quem foi Alice Guy-Blaché?

Mesmo pesquisadores e profissionais do cinema pouco conhecem a carreira dessa pioneira.

Secretária na Gaumont pouco antes de a empresa migrar da fotografia para o cinema e se tornar o estúdio francês pioneiro na realização e exibição de filmes, Alice acompanhou o início da pesquisa e comercialização de câmeras para registrar e reproduzir imagens em movimento.

Logo após uma demonstração dos irmãos Lumière, pediu emprestada uma câmera e, com técnicas especiais de fotografia e um grupo de amigos atores, filmou em 1896 o curta-metragem “The Cabbage Fairy” (A Fada dos Repolhos), inspirado em um famoso conto francês. Foi a primeira pessoa a realizar uma sequência de imagens que contava uma história.

Em 1910, Alice migra com seu marido para os EUA, onde funda o Estúdio Solax, o maior do período pré-Hollywood.

Em 25 anos de carreira, Alice participou da criação de mais de mil filmes, mas apenas nos anos 1980 seu nome começou a ser introduzido na história do cinema.

Por que temos um grande filme de ficção sobre a vida de Georges Méliès, outro grande pioneiro francês, e pouco -ou quase nada- se fala a respeito de Alice Guy-Blaché?

Por que as histórias que nos inspiram são tão pouco contadas e interpretadas por mulheres?

Em tempos em que a igualdade de gênero está em evidência, é louvável que o ano de 2016 tenha batido o recorde de filmes com protagonistas femininas em Hollywood.

Dados do Centro para o Estudo de Mulheres na Televisão e Cinema, da Universidade de San Diego (Estados Unidos), mostram que em 2016 29% dos cem filmes com maiores bilheterias foram protagonizados por mulheres -em 2015, eram 22%.

Já por aqui, de acordo com a Ancine, dos 143 longas brasileiros lançados no país em 2016, 29 foram dirigidos por mulheres. Dois deles, também com protagonistas femininas, figuram no top 20 de maiores bilheterias nacionais do ano passado: “É Fada!” (direção de Cris D’Amato, com a youtuber Kéfera) e “Um Namorado para minha Mulher” (da diretora Julia Rezende, com Ingrid Guimarães).

Quando se pesquisa a história do cinema, porém, descobre-se que as mulheres já tiveram um papel bem mais efetivo no comando das produções. No início do século 20, ou seja, no início da indústria do cinema, a metade dos roteiros filmados nos Estados Unidos foi escrita por mulheres. Hoje tal índice fica pouco acima dos 10%.

Diagnosticar qual lugar tem sido atribuído à mulher é uma forma de jogar luz sobre a questão em um setor da arte tradicionalmente dominado pelos homens.

BARBARA STURM é cofundadora do festival Cineramabc e diretora de conteúdo na distribuidora Elo Company.


El Periódico
Alice Guy, la olvidada madre del cine
La directora de la primera película de ficción de la historia empieza a ser reivindicada tras décadas de olvido.
elperiodico.com/es/ocio-y-cultura/20170323/alice-guy-primera-directora-historia-cine-5919755

El País
Alice Guy Blaché, la pionera del cine sale del olvido
Un libro recupera la trayectoria de la primera directora de ficción, autora de 1.000 películas pero borrada de la historia por ser mujer
elpais.com/cultura/2017/03/26/actualidad/1490534401_520954.html

Cinesite
Os Filmes de Alice Guy-Blaché
Suzy Freitas
cineset.com.br/os-filmes-de-alice-guy-blache/

Wikipédia
Alice Guy Blaché
inclui filmografia e referências
pt.wikipedia.org/wiki/Alice_Guy_Blaché

Jornal Opção
Alice Guy Blaché é a verdadeira mãe do cinema
Euler de França Belém
jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/alice-guy-blache-e-verdadeira-mae-cinema-foi-primeira-diretora-diretor-da-historia-90589/

Canal no Youtube
youtube.com/user/aliceguyblache

Les résultats du féminisme (As consequências do feminismo), – 1906 – de Alice Guy Blachè. Retrata uma pequena sociedade em que os papéis de gênero foram trocados e os homens são vistos em atividades antes atribuídas às mulheres: passando roupas, cuidando de bebês, costurando. As mulheres, em contraposição, fumam, bebem, humilham seus maridos e assediam maridos alheios. Os pobres homens logo se revoltam com as injustiças e promovem uma revolução.


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