Matéria publicada no Caderno 2 do jornal A Tarde de 16 de agosto de 2016.
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Animação em retrospecto

Mostra que acontece na Caixa Cultural Salvador até domingo apresenta recorte da produção do segmento no país, reunindo 51 filmes realizados entre 1929 e 2016.

 

ADALBERTO MEIRELES
Jornalista

retrospectiva-animacao-a-tardeHá um cuidadoso trabalho de curadoria e resgate incutido na Mostra Retrospectiva de Cinema de Animação Brasileiro, que começa hoje e vai até domingo na Caixa Cultural Salvador. O programa inclui a exibição de 51 filmes  produzidos no país entre 1929 até os dias atuais, a realização de uma oficina ministrada pelos animadores Maurício Squarisi e Elisabeth Russo e a homenagem a Chico Liberato, pioneiro do segmento na Bahia.

Diretor dos longas Boi Aruá (1983, 60min) e Ritos de Passagem (2012, 98 min), Chico Liberato terá mais 10 filmes exibidos. A produção foi responsável pela recuperação e digitalização de cinco filmes que constam na programação. Três deles são de Chico: Natal em Maragojipinho (1987, 3 min) e Festa da Mocidade (1987, 10 min),  ambos tendo Maurício Squarisi e Wilson Lazaretti como coautores, e Pedido-Pax (1987, 8 min). Em Muçagambira (1982, 17 min), dirigido por sua mulher, Alba Liberato, ele atua como produtor. Também Emprise (1973, 6 min), de José Rubens Siqueira, consta da relação.

Ritos de Passagem, longa-metragem de 2012 do homenageado Chico Liberato, que terá mais de 10 filmes exibidos no evento

Ritos de Passagem, longa-metragem de 2012 do homenageado Chico Liberato, que terá mais de 10 filmes exibidos no evento

 

Curadora da mostra, a pesquisadora e cineasta Isabel Veiga diz que quis estabelecer um recorte. Foi critério o fato de ter alguns marcos da cinematografia nacional. Ela cita trabalhos pioneiros da animação brasileira, como Macaco Feio, Macaco Bonito (1929, 4 min), de Luis Seel, outras raridades como Sinfonia Amazônica (1953, 61min), de Anélio Latini Filho, até chegar aos recentes, e premiados no Festival de Annecy, Uma História de Amor e Fúria (2013, 75min), de Luiz Bolognesi, e O Menino e o Mundo (2013, 85 min), de Alê Abreu, que concorreu ao Oscar de Animação.

Isabel cita Seel, que tem ainda em exibição Frivolitá (1930, 3 min), como a ponta deste arco histórico traçado. Os filmes percorremos anos 30, 50, 70, 80 do século passado até agora. São filmes premiados, que tiveram uma carreira de importância, afirma Isabel, ao rever o processo de escolha. Também tem os que “usam determinadas técnicas de uma maneira inovadora”. E mais: “Filmes que a gente gosta e que a gente acha que o público se interessaria”.

O Kaiser, de Álvaro Marins (o Seth), remonta aos primórdios, em 1917

O Kaiser, de Álvaro Marins (o Seth), remonta aos primórdios, em 1917

Preservação
Um dos destaques é o citado Sinfonia Amazônica, primeiro longa brasileiro de animação. “Não tem mais em película, foi feita uma cópia a partir de uma fita U-matic. Muita coisa se perdeu na história por falta de preservação. Então a gente toca nesse aspecto também, na importância de preservar os filmes e a sua história, por consequência”, diz: “Temos como fazer muitas mostras com essa perspectiva, de filmes recuperados que ficaram de fora”. Há também alguns títulos preocupados em refletir sobre a criação na arte de animação. Animando (1983, 12 min), de Marcos Magalhães; A Pequena Ilusão (2007,8 min), de Lavínia Chianella e Tomás Creus, e Luz, Anima, Ação (2013, 99 min), de Eduardo Calvet são alguns exemplos. Isabel destaca este último, que resgata a história da animação brasileira a partir de sua nascente, com Álvaro Marins, conhecido como Seth, diretor de O Kaiser (1917), até Carlos Saldanha com obras como Rio (2011). “É um filme bem interessante, muito complementar e importante, para a gente ter um olhar mais apurado sobre tudo o que se fez e como foi feito”, fala Isabel. Para ela, vivemos um momento ascendente: “O Anima Mundi é um festival muito importante para difundir. A gente vive em diálogo com a televisão, que tem feito crescer muito a animação brasileira”.

Para ela, o segmento é muito forte no sentido de alcance público. Tem também que alcançar políticas públicas e espaços de difusão. É bom lembrar que a mostra é fruto da seleção feita para o Programa de Ocupação dos Espaços da Caixa Cultural.

Oficina de Animação, com Maurício Squarisi e Elisabeth Russo

Oficina de Animação, com Maurício Squarisi e Elisabeth Russo

Oficina vai ensinar como fazer a produção de um curta do gênero

A Oficina de Animação, ministrada por Maurício Squarisi e Elisabeth Russo, tem um viés pratico muito importante: a produção de um curta-metragem de animação. Será uma turma de 20 pessoas, de hoje a domingo), das 10h às 13h30. As inscrições são gratuitas. Os interessados devem enviar mensagem com nome completo, idade, breve currículo e carta de intenção (explicando por que gostaria de participar da atividade) ao e-mail mostradeanimacao@gmail.com.  A idade mínima exigida para participação é 15 anos, e será oferecido certificado de conclusão. O critério de seleção será o da ordem de inscritos.

Homenageado da mostra tem traço ligado aos mitos do sertão

Um dos mais atuantes artistas baianos, Chico Liberato iniciou carreira nos anos 1960, quando participou de importantes exposições como a I Bienal de Artes Plásticas da Bahia, em 1966. Foi diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia. Homenageado este ano pela mostra itinerante do Anima Mundi, realizada em maio também na Caixa Cultural, tem uma carreira sólida no trabalho de criação, produção e difusão da técnica de animação. Atuou por vários anos como coordenador do segmento na então Diretoria de Imagem e Som – Dimas, da Fundação Cultural. Com um traço inconfundível, que privilegia o homem nordestino, a cultura e mitologia do sertão, Liberato foi o autor dos cartazes da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, criada por Guido Araújo no início dos anos 1970.

Debate
O homenageado da mostra, além de ter 12 filmes exibidos, participa, no dia 20 (sábado, às 18 horas), do debate Animação com Chico Liberato. O encontro terá entrada gratuita e estará sujeito à lotação do espaço.

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