Produzido e totalmente rodado em Cachoeira e São Félix, no Recôncavo Baiano, Café com Canela chega ao circuito comercial após percorrer diversos festivais, inclusive com premiação no festival de Brasília (Melhor Filme pelo Júri Popular; Melhor Roteiro e Melhor Atriz, para Valdinéia Soriano).

Segue matéria publicada hoje no jornal A Tarde:


A TARDE
16.08.2018

Recôncavo Afetuoso
por Vinicius Marques

(veja versão em PDF)

Após uma bela carreira com participação em mais de 15 festivais no Brasil e exterior, estreia hoje em Salvador, no
circuito comercial, o longa Café com Canela, filmado e realizado no Recôncavo baiano.

O longa foi um dos grandes vencedores do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, abriu a 21ª Mostra de Tiradentes, integrou a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, foi premiado no XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema e na 9ª Semana dos Realizadores.

Café com Canela deixa claro durante toda a sua projeção que é o primeiro filme da dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio. Recém-formados, eles não tiveram receio de brincar com os recursos cinematográficos.

Ambientado no Recôncavo baiano, o filme tem como protagonistas duas mulheres negras, as duas com nome de flor: Margarida (Valdinéia Soriano), uma ex-professora que, após a perda do filho, se isola do mundo na sua dor, e Violeta (Aline Brune), uma ex-aluna de Margarida que tenta trazer a antiga professora de volta para a vida.

O que estrutura a trama é a vivência do luto, que ambas experienciaram. A história traz esses pontos com delicadeza e discrição. Os diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio vivem no Recôncavo da Bahia, onde se formaram em cinema e audiovisual na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e fundaram a produtora independente Rosza Filmes.

Valdinéia Soriano: premiada pelo seu desempenho no filme

Segundo Ary, Café com Canela nasce da vontade de desenvolver um filme que se aproxime da cultura, das tradições e do cotidiano do lugar que escolheram para viver e construir a produtora deles.“Queríamos contar uma história que passa pela tradição e costumes do Recôncavo, mas que tem sua força maior no dia a dia de pessoas comuns que sofrem, sentem dor, se ajudam e tomam uma cervejinha no fim da tarde. O encontro e o afeto é o que move esses personagens”, conta Ary Rosa, diretor do filme.

A forte atuação das duas mulheres protagonistas é o grande destaque do filme. Soriano, que inclusive venceu o prêmio de melhor atriz no 50º Festival de Brasília pelo seu desempenho no filme, consegue espalhar pela telona a dor de sua personagem mesmo quando aparece sozinha. Já Brune, com toda sua alegria, faz Violeta se transformar em um elo que costura toda a trama.

Ary Rosa e Glenda Nicácio dirigem o filme (Foto: Liz Riscado/ Divulgação)

 

Experimentações
Em Café com Canela, nomes, temporalidade e encontros podem parecer demorados a se revelar, mas no filme nada é entregue de bandeja. Ao contrário, utilizam-se lacunas como artifício de linguagem, a exemplo do fato de não sabermos o que aconteceu aos pais de Violeta ou como o filho de Margarida faleceu.

Ary e Glenda experimentam a linguagem e a narrativa com toda a vontade de fazer cinema. Dentro desta narrativa os diretores usam e abusam das mais diversas técnicas, como mudanças no aspecto da tela, sequências em sonho, diferentes tipos de lente, elipses temporais, quebra da quarta parede, flashbacks, etc.

O excesso estilístico não soa como experimentação vazia e pretensiosa, e, mesmo com todas as diversas técnicas mencionadas, o filme não afasta o público nem o confunde, mas o recebe e o insere no dia a dia dos personagens.

Diferentemente da maioria de nosso cinema independente, Café com Canela não se esforça para atingir quaisquer noções predeterminadas sobre o que bons filmes devem ser. Ao mesmo tempo, traz de volta a tradição crônica que sempre foi um dos nossos traços mais fortes. O filme se desafia sem afetação.

Ancestralidade e cultura são coisas arraigadas em Cachoeira. A cidade possui uma forte ligação afro-brasileira, e Café com Canela abraça isso. “Ao mesmo tempo que defendemos o regionalismo, o Recôncavo como inspiração e influência, Café com Canela se mostrou um filme universal, que dialoga com diferentes culturas dentro do próprio
país, mas também com outras nações, como foi o caso da Holanda, Camarões e Portugal”, conta Ary Rosa.

Apesar de não ser um filme abertamente político, sua ambientação e protagonistas negras criam uma relevância política na obra que emana representatividade e empoderamento. Isso se estende até na produção do filme: cerca de 60 profissionais compuseram a equipe do longa, sendo todas elas da própria comunidade do Recôncavo.

Café com Canela revela o encontro da atual geração de cineastas brasileiros, jovens e negros, que reeducam nosso olhar e criam um debate nessa nova forma de fazer cinema. É um filme que fala de intimidade e traz imagens pouco vistas na tela grande, chegando a ser raras, considerando sua ambientação e seu elenco majoritariamente
negro.

Após Salvador, o filme estreia na próxima semana em São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife, Santos, Niterói, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Porto Alegre e Belém. “Café com Canela foi contemplado em 2017 com o Prêmio Petrobras de Cinema por meio de Júri Popular no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o que possibilitou realizarmos esse sonho tão difícil que é chegar às salas de cinema comercial”, comemora o diretor.

Um ano após a estreia de Café com Canela, Ary e Glenda voltam para o Festival de Brasília para apresentar o novo filme da dupla: Ilha. “É um superprazer poder levar esse novo trabalho para o festival que lançou Café com Canela. Esperamos poder passar o filme o quanto antes na Bahia”, finaliza Ary Rosa.


Seguem links para artigos publicados em jornais e sites:

Facebook.com/cafecomcanelaofilme

Correio*, 16.08.2018
Roberto Midlej
Café com Canela, produção baiana, mostra o afeto nas relações humanas

Folha de São Paulo, 18.01.2018
Lúcia Monteiro
‘Café com Canela’ lança olhar afetivo ao Recôncavo Baiano

Correio*, 12.11.2017
Claudio Marques
Café com Canela é cinema de andar na rua de sandália!

CinePipocaCult, 20.09.2017
Amanda Aoud
Café com Canela

TVE Bahia – programa Soterópolis
facebook.com/tvebahia/videos/1511457762276511

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