O Secretário de Cultura da Bahia, Jorge Portugal, em entrevista à revista Muito (suplemento dominical do jornal A Tarde) responde perguntas de artistas, pesquisadores e produtores culturais.

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Reportagem: Tatiana Mendonça
Fotos: Lúcio Távora

Revista Muito
edição nº 422 de 7 de agosto de 2016
Fonte: atarde.uol.com.br/muito/noticias/1792591-nunca-cogitei-ser-gestor-de-nada


“Nunca cogitei ser gestor de nada”

Jorge Portugal, 60, cantarola Tarde em Itapuã, de Vinicius de Moraes e Toquinho, e logo interrompe a música para gabar-se de ter realizado o desejo expresso naqueles versos há 15 anos, quando se mudou para o bairro. Foi em sua casa, numa tarde de terça-feira, que Portugal conversou com Muito para responder a perguntas feitas por artistas e pesquisadores de Salvador, com intervenções pontuais da reportagem. Há um ano e meio, o educador, poeta e compositor está à frente da Secretaria de Cultura (Secult), sua primeira experiência como gestor de um órgão público. Confessa que ocupar o cargo foi um desafio para a sua cabeça. “Houve uns dois ou três meses em que eu entrava nas agendas, conversava com as pessoas e ficava meio tonto de tanta informação, de ter que tomar tanta decisão, de conferir tantos números. Depois, fui relaxando”. Nesse período, acostumou-se também a repetir como um mantra a razão da descontinuidade de algumas ações e projetos mantidos por seus antecessores, o diretor teatral Márcio Meirelles (2007-2010) e o acadêmico Albino Rubim (2011-2014). Mil vezes crise. “Quando cheguei, em 2015, encontrei o pior cenário econômico da história do país”. Diz que 2016 ainda não é o ano “do sonho de ninguém”, mas planeja, nos meses que restam, implantar ao menos dois novos projetos: o Escolas Culturais – que, como o nome entrega, pretende transformar estabelecimentos de ensino em centros culturais – e o Janela Baiana, que prevê apresentações de artistas baianos precedendo os shows de cantores e bandas nacionais na Concha Acústica. Em 2017, acalenta um desejo mais ambicioso. Quer “estourar o champanhe” da Bahia Filmes, agência de promoção do cinema baiano, que deve funcionar nos moldes da Rio Filmes e da Spcine.

Gisele Nussbaumer, pesquisadora – Percebemos gradativos cortes nos programas e recursos do estado para a cultura, a exemplo do Sua Nota é um Show e Pelourinho Cultural, além dos editais, que não mais contemplam, especificamente, importantes elos da cadeia produtiva, como a circulação. Qual o lugar da cultura, em termos de importância e orçamento, no atual governo?

Nós estamos num cenário de crise. Essas coisas se dão por conta das circunstâncias, e não como resultado de uma determinada política de cortes na cultura. Sabe-se que o orçamento para a cultura, até mesmo na esfera federal, é o menor de todos. E, quando você faz um corte linear, a cultura termina sendo duplamente penalizada, porque já tem um orçamento pequeno, e ele diminui mais ainda. Agora, em relação ao Sua Nota é um Show, estamos conversando com a Secretaria da Fazenda. Só estou aguardando eles instaurarem o que chamam de nota eletrônica para a gente retomar o projeto, que não ficará somente em Salvador.

Nadja Vladi, pesquisadora – [O ex-secretário da Cultura] Márcio Meirelles mudou a política cultural do estado. Albino Rubim [também ex-secretário] seguiu com essa reestruturação. Na sua gestão, percebe-se que o senhor está mexendo um pouco nisso. Cada vez há menos editais, os territórios de cultura não estão sendo muito fomentados. Não é uma gestão de rompimento, mas também não é, propriamente, de continuidade. Qual é a sua ideia de sistema de cultura? Como é que ele deve se mover agora?
Acho que essa é uma percepção errônea. Sou o terceiro secretário de um mesmo projeto político. Peguei a Secretaria de Cultura depois de Márcio Meirelles ter implementado… Isso que foi realmente um rompimento. Porque antes, sabe-se muito bem como é que se fazia cultura: através do telefone, com determinados privilégios direcionados. Depois, ela se tornou uma política republicana, democrática, o que foi mantido por Albino e continuado por mim. Não há mudança. Quanto aos editais, quando tomei posse, em 2015, afirmei que pagaria todo o passado. Então, parte do montante do Fundo de Cultura foi para pagar a dívida. Hoje a cultura não deve nada a ninguém. Com os 15 milhões que sobraram, nós ainda fizemos o Agitação Cultural [Edital de Dinamização em Espaços Culturais]. No Agitação Cultural, prometi que ia pagar numa parcela só, no mesmo ano, e assim foi feito. Todo mundo recebeu. Este ano, quero pagar 70% do valor de cada edital até dezembro. Os recursos do FazCultura e do Fundo de Cultura não foram contingenciados. O orçamento para investimento é que diminuiu bastante, ficou quase que inexistente. Mas tenho dialogado permanentemente com a área da Fazenda. E tenho encontrado em Manoel Vitório [secretário da Fazenda] uma pessoa de sensibilidade extrema.

Isaura Tupiniquim, dançarina – Como o senhor entende a ideia de políticas públicas para as artes? Sei que a pergunta parece ampla, mas acredito que sua resposta pode evidenciar a ética política-estética do seu lugar de fala, e isso nos interessa como artistas e intelectuais.
Isso daí dá uma tese. Olhe bem, o que faz uma secretaria? Fomentar. Ela não cria absolutamente nada. A criatividade está no âmago das artes. E o que pode fazer uma política cultural é fomentar as pessoas que criam. Isso nós fazemos através de duas linhas: a linha do FazCultura – que é de alguma maneira muito mais…. em bom termo, conduzida pelo marketing das empresas – e o Fundo de Cultura, que é a forma de política cultural mais democrática do país. Infelizmente, não tenho um grande orçamento para fazer a metade do que está na minha cabeça, na esfera dos meus desejos. Costumo dizer que cheguei à secretaria com sonhos múltiplos para uma LOA [Lei Orçamentária Anual] e terminei guardando todos eles para o PPA [Plano Plurianual]. Quando cheguei, em 2015, encontrei o pior cenário econômico da história do país. Quero até contar uma coisa que li outro dia. Perguntaram a Manoel Vitório se ele tinha alguma boa notícia para 2016. Ele disse: ‘Tenho. 2017’ (ri). Então 2016 ainda não é um ano do sonho de ninguém.

Mas já deu para realizar algum desses sonhos que o senhor tinha?
Estamos indo aos poucos. Por exemplo, estou praticamente entregando ao governador o projeto das Escolas Culturais. Por quê? Porque sou uma interseção entre a cultura e a educação. E eu sentia que havia uma certa apartação dessas áreas. Esse projeto vai dialogar com os dois grandes pactos do governo, o Educar para Transformar e o Pacto pela Vida. Portanto, ele é multidisciplinar, conversa com segurança, com educação, com justiça, com desenvolvimento social. Todos os territórios da Bahia são riquíssimos, somos uma explosão cultural permanente, mas, muitas vezes, você tem cidades de vinte, quinze mil habitantes que não têm nenhum espaço cultural. Nossa proposta é que a escola seja o grande espaço cultural dessas cidades. Queremos fazer este ano pelo menos o piloto deste projeto.

Gil Vicente Tavares, dramaturgo – Os editais setoriais são um balaio de gato, onde artistas e projetos dos mais distintos em histórico e relevância concorrem em pé de igualdade e ficam à mercê da subjetividade de uma comissão que nem sempre tem no valor artístico seu foco na escolha. Com isso, indicadores como festivais, quantidade de público e reconhecimento artístico não são levados em conta e/ou servem, ao contrário, como argumento para dar oportunidade a outros, descontinuando trabalhos sólidos. O que o senhor pensa sobre isso?
Primeiro, não concordo tanto. Toda comissão avaliadora tem, sim, o seu quantum de subjetividade. Não conheço outra forma de fazer uma escolha com maior isenção que não seja através de uma comissão de pessoas que são notórias do conhecimento daquilo que julgam. Se não fosse assim, seria o quê? A pessoa do secretário que julgaria? O secretário é atento, não tenha dúvida. Estou mergulhado nesse oceano desde que me fiz gente. Sei do valor dele [Gil Vicente Tavares], sei de cor todas as peças que você encenou, mas isso não me autoriza a fazer indicações aqui ou ali. Se fosse assim, Deus do céu, a gente voltaria aos primórdios, antes dos editais republicanos.

Mas como fomentar a continuidade de projetos artísticos que têm uma trajetória longa, reconhecida?
Acho que a iniciativa privada ainda contribui muito pouco com a cultura. Só vai quando há isenção fiscal. Quando cheguei, ouvi uma reclamação muito grande do Museu Carlos Costa Pinto. Que ia fechar, que estava numa situação delicada etc. E ninguém se lembrava que o estado contribui, através das ações continuadas do Fundo de Cultura, com o Museu Carlos Costa Pinto, assim como com outras 14 instituições. Sei que o dinheiro do estado é insuficiente. Mas será que um empresário sensível, sabendo da importância daquele museu, do tesouro que ele guarda, não poderia chegar e dizer que quer contribuir?

Celso Jr., dramaturgo – Qual foi a última peça de teatro que o senhor assistiu, na Bahia? E o que o senhor achou da peça?
(Ri). Xô ver aqui, rapaz… Me lembre aí, vá [dirige-se à assessora]. Assisti a tantas peças, bicho, ultimamente… A última… Tá perguntando à memória de um sexagenário. Bom, na Bahia, assisti à peça com Marieta [Severo]. Incêndios, é. [A peça esteve em cartaz nos dias 17 e 18/4, no Teatro Castro Alves].

Ele está perguntando também o que o senhor achou.
Porra, eu saí de lá e dei um beijo estalado na bochecha… Como é o nome dele, o diretor? Aderbal Freire Filho! Uma encenação genial.

De baiano, o senhor lembra de algum?
Lembro, lembro. Todos os que foram encenados no Vila Velha.

Fábio Magalhães, artista visual – Diante da atual conjuntura das artes visuais, com a extinção do Salão da Bahia desde 2009 e dos Salões Regionais, o cancelamento de prêmios como Matilde Mattos e Portas Abertas para as Artes Visuais e a Bienal da Bahia, sem previsão de uma próxima edição, como o senhor vê e pensa o fomento da produção de seus artistas plásticos, principalmente os jovens?
De fato, a ausência da Bienal vai abrir uma lacuna muito grande. Mas o motivo é o mesmo, eu não preciso repetir. Não há orçamento. Mas nós estamos completamente abertos para os novos artistas. Temos todos os nossos espaços culturais, sobretudo os centros culturais do interior, abertos para exposição. E eles estão sendo pautados sem parar.

Cláudio Marques, cineasta – Finalmente, tivemos um edital com valor expressivo para o cinema (R$ 14 milhões). Mas sabemos que política cultural se faz com continuidade, e nosso histórico não é dos melhores. Nos últimos 10 anos, tivemos apenas cinco editais e os valores eram inexpressivos ante estados como Pernambuco e o Distrito Federal. O senhor acredita que será possível manter o edital para o setor nos próximos anos?
Totalmente. Não teria sentido fazer um edital encorpado para o audiovisual num ano e, depois, voltar para o patamar dos R$ 6,5 milhões, que era o valor anterior. Além do mais… Bom, não gosto de falar essas coisas, porque amanhã já vão começar a me cobrar. Mas ainda não tirei da minha cabeça e estou trabalhando desassossegadamente pela criação da Bahia Filmes. Nós começamos uma conversa produtivíssima com a SDE [Secretaria de Desenvolvimento Econômico], que tem um especial interesse nesse assunto; com alguns cineastas – não vou dizer quem são, porque senão o ciúme vem -; e com o nosso querido Bertrand [Duarte], que é o diretor de audiovisual. Espero que no máximo em 2017 a gente estoure esse champanhe.

Nelson Macca, poeta e ativista cultural – A cidade de São Paulo acaba de sancionar a lei de fomento à cultura da periferia, com orçamento de nove milhões. Lá, através do Vai – Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais, de 2004, inúmeros projetos literários ligados à cena periférica têm permitido publicações e eventos nos quais a literatura contemporânea local é central. O senhor acompanha essas iniciativas? O que tem pensado com relação à cena literária das periferias pobres, sertanejas, indígenas e pretas do estado da Bahia?
Não só acompanho, como participo de alguns desses saraus, como poeta que sou. Tenho conversado ultimamente com Zulu Araújo, que é o diretor da [Fundação] Pedro Calmon, e com a coordenação de literatura da Funceb [Fundação Cultural do Estado da Bahia], com vistas à gente dar um tratamento especialíssimo a essa forma de expressão.

Hoje há alguma ação nesse sentido?
Ainda não. Estou há um ano e meio [na secretaria]. Outro dia, um babaca escreveu no Facebook: ‘Com dois anos e meio, Jorge Portugal ainda não mostrou a que veio’. O tempo para ele passou depressa como a porra. Falei: rapaz, primeiro, você precisa aprender aritmética. Só neste semestre, tivemos a Concha Acústica, o São João, lançamento de editais. As pessoas ou não percebem isso ou então percebem e… (suspira). É difícil. Mas é gostoso, também.

João Jorge, presidente do Olodum – Quando o programa de ações continuadas será estendido às organizações afro-baianas?
Isso daí é um convênio que tem determinada duração. E esse convênio chega ao seu terceiro ano, que é o tempo máximo, este ano. Nós teremos um edital novo, abrindo a possibilidade para as entidades de matriz africana.

Elas irão concorrer com as demais ou haverá algum edital específico?
Não, vão concorrer conjuntamente.

Lazzo Matumbi, cantor – O senhor pensa em implantar um projeto de fomento musical, tal como era o Projeto Pixinguinha ou retomar o Sua Nota é um Show, para investir na melhoria da qualidade da música produzida na Bahia?
Ô, que pergunta boa!

Mas ele faz uma observação: “Com o compromisso de que o repasse dos pagamentos seja feito de forma mais rápida, ao contrário da realidade atual”.
Ah, meu Deus, diga a Lazzo que eu também já sofri muito com isso… Já falei sobre a retomada do Sua Nota é um Show, e nós estamos também dando os últimos retoques num projeto chamado Janela Baiana. É justamente a apresentação de artistas baianos precedendo os shows de artistas nacionais que venham para a Concha Acústica. A ideia é que o projeto comece já. Só estou esperando que a PGE [Procuradoria Geral do Estado] dê o OK. Quero isso também em outras linguagens, como teatro, dança, circo…

O senhor completou 60 anos no último dia 5.
(Olha para o alto) Não fale isso.

Por quê? Está em crise?
De quê?

De idade.
De idade? Menina, não. Porque nunca passei de 32 anos na minha cabeça. Levei 40 anos convivendo e ensinando à faixa etária de 17-18 anos. E aí não sentia o tempo passar. Quando saí um pouco disso foi que comecei a recordar coisas. Esse cara foi meu aluno e já é esse médico famoso… Mas chegar aos 60 anos, como estou chegando, é uma dádiva.

Como está sendo, pessoalmente, para o senhor essa experiência à frente da Secretaria de Cultura? É muito diferente do que o senhor imaginava?
Muito. Foi um desafio para a minha cabeça. Primeiro, que nunca cogitei ser gestor de nada. Houve uns dois ou três meses em que eu entrava nas agendas, conversava com as pessoas e ficava meio tonto de tanta informação, de ter que tomar tanta decisão, de conferir tantos números. Depois, fui relaxando. Para o artista, criar é isso (estala os dedos). Então, esperar o tempo da burocracia para o artista é algo altamente aflitivo. Por isso, digo a eles: fiquem tranquilos, que estou aqui, mas continuo aí onde vocês estão. Entendo totalmente a dor de vocês, porque essa dor também é minha.

O senhor está gostando da experiência, a ponto de pensar em repeti-la no futuro?
Não. Experiência única. O que quero, se Deus quiser, é voltar a pegar meu violão, voltar a sentar com Roberto [Mendes], com Lazzo [Matumbi], fazer músicas, voltar à minha sala de aula ou ao meu programa. Mas missão é missão. Até 2018, né? Até 2018, se o doutor Rui Costa quiser, continuo lá.

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