Em sua edição nº 377 de 6 de setembro de 2015 a revista Muito, encarte dominical do jornal A Tarde, apresenta entrevista com Steven Peacock, professor da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra. PhD em estética e especialista em cinema e TV.

Reportagem: Carla Bittencourt
Fotos: Fernando Vivas

Fonte: http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1710200-o-cinema-pode-aprender-muito-com-a-televisao

 

“O cinema pode aprender muito com a televisão”

O drama televisivo está ajudando o audiovisual a reescrever sua história. Se, em um determinado momento, o cinema influenciou as narrativas da TV, hoje pode-se dizer que essa influência também ocorre no sentido inverso, fazendo diretores de cinema ficarem mais atentos às experimentações e acertos que acontecem na televisão. A palavra televisão, aliás, deve ser compreendida num contexto de flexibilidade, já que, há algum tempo, as produções originais da Netflix têm competido com os canais a cabo e colocado a internet na linha de frente deste setor. As análises são de Steven Peacock, 41, professor da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra. PhD em estética e especialista em cinema e TV, Peacock esteve em Salvador, onde inaugurou um ciclo de oficinas internacionais promovido pela produtora Arara Filmes em parceria com a Malagueta Filmes, a Associação Brasileira das Produtoras Independentes de Televisão (ABITV) e o Latin American Trainning Center (LATC). Apesar de pouco familiarizado com as produções brasileiras – sabia brevemente do sucesso da novela global Avenida Brasil por intermédio de um aluno -, o professor acredita que o país busca uma programação mais corajosa. À Muito, Peacock falou sobre estética, mudanças de hábito entre espectadores, a transformação da indústria do entretenimento e sua série favorita.

As séries se transformaram em um vetor de inovação para a própria TV e para o cinema. De que forma isso foi possível?
Isso se deve à qualidade de certos dramas televisivos dos anos 1990. Houve um momento, “a era de ouro da TV”, que explica esse processo. Tomemos como exemplo séries como Twin Peaks (de David Lynch) e The Sopranos (de David Chase). Talvez mais do que qualquer outra série, essas foram as mais importantes para nos trazer onde estamos hoje. Ambas mostram personagens complexos, anti-heróis, contações de histórias maravilhosas e uma qualidade cinematográfica de imagens. Ali as pessoas começaram a perceber que a TV tinha exatamente o mesmo potencial que o cinema de ser artisticamente um fenômeno.

As séries reinventaram o audiovisual?
Sim, e por duas razões. Uma é o tempo que se tem para construir o roteiro. Há muitos episódios e mais oportunidade para trabalhar os personagens e o design. O drama televisivo já não tem medo de experimentar e inclusive está sendo influenciado pelos filmes de arte. The Sopranos tem sequências de sonhos, Twin Peaks é totalmente surrealista, os últimos episódios de Haniball (de Brian Fuller) são bem estranhos. Então, sim, a TV mudou o audiovisual.

O senhor acompanha a produção brasileira de televisão? O que acha?
Não muito, infelizmente. Mas aqui, encontrando pensadores e realizadores, percebi que é essencial, é algo que preciso olhar mais de perto. Um dos meus alunos me falou de Avenida Brasil (novela global de 2012, de João Emanuel Carneiro). Agora também há mais oportunidade de exportar dramas televisivos de língua estrangeira para o Reino Unido e para os Estados Unidos.

No Brasil, quanto às temáticas abordadas, existe mais liberdade nas séries do que nas novelas. Enquanto as séries tratam com naturalidade questões de identidade e gênero, por exemplo, as novelas resistem em exibir cenas de beijo entre duas mulheres ou dois homens. Por que ainda nos deparamos com esse tabu?
É cultural. Mas nesses poucos dias de Brasil percebi que há um interesse real em forçar essas fronteiras, especialmente em termos de estética. É por isso que estou aqui. Aos poucos as fronteiras são flexibilizadas e a abertura é encorajadora.

Em 2013, o então secretário de audiovisual no Brasil disse que nossa produção independente era precária. Que os roteiristas ganhavam pouco e trabalhavam sob controle total do diretor. Como acha que podemos mudar este cenário?
Um dos objetivos de vir ao Brasil foi para dar exemplos de projetos em TV que podem ser bem-sucedidos com um orçamento pequeno. Há séries norte-americanas com apenas duas pessoas falando em uma sala, mas a cena se desenvolve com um estilo extraordinário. Os diretores de Hollywood  sempre tiveram restrições aos estúdios. Mas isso nunca impediu Alfred Hitchcock, por exemplo, de fazer coisas brilhantes.

O roteirista britânico David Hare esteve no Brasil este ano para a Festa Literária de Paraty (Flip) e aqui ele disse que a TV anda melhor do que o cinema. Para ele, as séries são sucesso porque, nos EUA, os roteiristas têm permissão para fazer o que sabem, que é escrever. Você concorda?
Há uma diferença de papéis no cinema e nas séries de TV. O diretor de um filme é o autor. Na TV, o autor é o roteirista, chamado de show runner. Em boa parte dos casos, as pessoas conhecem a unidade do drama televisivo, mas não separam os dois.

As narrativas das séries têm demonstrado maior maturidade ao passo em que o cinema parece estar se infantilizando. O que está acontecendo?
Muito do que está sendo lançado por Hollywood tem ênfase no espetáculo em vez de numa história mais profunda e complexa. As séries têm a capacidade de expandir a história de muitas outras formas. A primazia da palavra falada na TV é importante na contação da história.

Mas isso com o cinema também, não?
O cinema agora pode aprender muito com a televisão, da mesma forma que a televisão precisou aprender muito com o cinema.

A possibilidade de assistir a vídeos online sem a necessidade de baixar arquivos tem mudado a forma como as pessoas veem seus programas e filmes. Com o streaming, o espectador está cada vez menos passivo, é o dono da programação. Como a TV pode enfrentar essa concorrência?
O streaming é uma transformação essencial. O melhor exemplo, no Reino Unido, é o fato de queBreaking Bad (série de Vince Guillian) foi mostrada na Netflix e nunca passou na TV aberta ou na TV a cabo. Muita gente, aliás, se associou à Netflix só para ver Breaking Bad. Quando você combina isso com as redes sociais, com o fato de que as pessoas vão tuitar sobre o que estão vendo, as redes mais tradicionais têm que se levantar para recuperar seu espaço.

Este ano, a Netflix já adicionou mais assinantes do que o previsto e chegou a uma receita de 1,6 bilhão de dólares. Qual é a explicação para tanto sucesso?
Acho que é porque eles começaram a produzir a própria programação. As pessoas não acessam a Netflix só para ver o que perderam ou que já viram. Elas querem assistir a novos programas, ver material novo.

O professor Robert Mackee, guru de roteiristas norte-americanos, disse que a Netflix era só o começo de uma revolução na indústria do entretenimento.  Para ele, num futuro próximo, TV e cinema serão uma coisa só e essa fusão acontecerá na internet. Você concorda?
É uma afirmação corajosa, ninguém sabe de verdade o que vai acontecer. É sensato, mas enquanto pudermos assistir a bons filmes na TV, no cinema ou na internet, estarei feliz.

Muita gente tem o hábito de assistir às séries em maratonas. A Netflix, por exemplo, disponibiliza temporadas completas desde a estreia. Isso é levado em conta na elaboração dos roteiros?
Desde aqueles boxes vendidos com todas as temporadas das séries  já existia essa mania de maratona. Isso foi facilitado com o advento do download e depois com o streaming. É uma compulsão, você quer ver e saber o que virá em seguida. Talvez isso sirva de equilíbrio para o roteirista, mas sem deixar que cada episódio tenha a sua qualidade e, ao mesmo tempo, aspectos que façam você querer assistir ao próximo.

Qual a sua série favorita?
Mad Man (de Matthew Weiner). É a que tem todas as qualidades de um drama televisivo: roteiro, atuação, direção, mise-en-scène, profundidade e complexidade dos personagens. Há ainda um fator extra, que é muito difícil de pontuar. Existe algo misterioso no tom dessa série e, para mim, isso faz dela muito especial.

Exemplos de sucesso como Game of Thrones e Dexter assumiram riscos ao mudar obras literárias nas quais se inspiraram. Até que ponto um livro pode virar filme ou série sem prejuízo ao original?
Há uma tradição no cinema e na TV de adaptações. A TV britânica, por exemplo, tem diversas adaptações de clássicos, séries de época, de livros de Charles Dickens e Jane Austen. Costumo dizer aos meus alunos que eles devem julgar uma série pelos seus méritos. Não é uma questão de fidelidade, mas de saber que a série tem suas próprias qualidades.

O que não impede uma obra-prima de ser destruída na tentativa de adaptá-la…
Acho que não. A obra permanece, o original já está feito. O que pode mudar é a memória dos espectadores e dos leitores sobre o livro.

As séries também são responsáveis pelo caminho inverso e as pessoas vão buscar os livros depois de assisti-las.
Sim, isso acontece bastante e, em alguns casos, o espectador vai descobrir que a série a que assistiu é infinitamente superior ao livro. Um exemplo? Game of Thrones.

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