Co Hoedeman

Matéria escrita por Antônio Moreno e publicada na revista Cinemin nº 36, setembro 1987 – Editora EBAL

Após uma edição dedicada ao icônico Norman McLaren, nesta matéria Antônio Moreno fala sobre Co Hoedeman, outro grande realizador do National Film Board of Canada, o instituto canadense que é um capítulo à parte na história da animação.

Segue texto de Antônio Moreno. Clique na imagem para ver a versão em PDF, com outras fotos da publicação original da revista Cinemin.

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ANIMAÇÃO NO CANADÁ: 
CO HOEDEMAN,
Oscar Para ‘Castelo de Areia”

Falar sobre o Cinema de animação do Canadá, ou melhor, das produções do National Film Board of Canada, é uma tarefa árdua, devido à riqueza do material dos filmes e à habilidade de seus realizadores. Tanto os temas quanto a linguagem e a forma são de uma diversidade criativa, largamente consagrada em festivais internacionais. Podemos encontrar diversos gêneros de filmes, realizados nas mais diversas técnicas de animação, como: em tela de alfinetes, animação de bordados (Distant lslands), com carvão (Syrinx), a pastel, com silhuetas, ou ainda com massa de modelar e areia. E falar sobre cada uma destas interessantes técnicas requer uma abordagem minuciosa para que se compreenda melhor e se sinta a beleza deste tipo de criação. E por causa da riqueza das produções do National Film Board of Canada, instituto onde o Estado dá todo apoio à experimentação cinematográfica, dedicaremos uma série de artigos para falar de seus artistas e suas técnicas, além do já publicado sobre Norman McLaren (CINEMIN, nº 33).

 

Neste número falaremos da obra de Co Hoedeman, que desenvolve um trabalho primoroso no NFBC, dedicando toda sua criação à animação de bonecos, ou aliando animação de bonecos com animação de areia, como o fez no seu filme mais famoso, Castelo de Areia/ Chateau de Sable, ganhador do Oscar/1978, para categoria Melhor Filme Curto de Animação, e do Grand Prix do Festival de Annecy, França, 1977.

CO HOEDEMAN
O National Film Board of Canadá, fundado em 1941, teve criada a divisão de Cinema de Animação em 1943, pelas mãos de Norman McLaren, que por sua vez, tornou-se símbolo deste instituto.

Diversos artistas emigraram, como o próprio McLaren, para o Canadá — e muitos se tornaram famosos, como Grant Munro (Toys), René Jodoin (Notes sur a triangule), Evelyn Lambart (Paradise Lost), Gerald Poterton (My Financial Career), Donald Bedard (A Era da Cadeira/ Chairmen), Ryan Lyrkin Syrinx, Ron Tunis (O Vento/ The Wind), Liliane Enlecavé (Luna, Luna, Luna) e, entre muitos outros, o holandês Co Hoedeman.

Como já vimos em matérias anteriores, principalmente sobre a animação na Tcheco-Eslováquia (CINEMIN, n.° 31), a técnica de animação de bonecos, utilizada por Co Hoedeman, foi largamente desenvolvida à perfeição por Jiri Trnka, Karel Zeman, Bretislaw Pojar, pelo russo Ladislas Starevich (CINEMIN, n.° 28), além de Hermínia Tyrlova e Zenom Wasilewsky, e de George Pai, artistas, na sua maioria, dos países do Leste europeu.

A Coruja e o Lemingue

A Coruja e o Lemingue

 

Co Hoedeman experimentou em seus filmes esta difícil técnica de animação, dado o fato dela ser tridimensional, para contar estórias simples de esquimós, como em A Coruja e o Lemingue/ Le Hibou et le Lemming, e em outros de animação ainda mais complicada, como a de O Tesouro das Grutas Oceânicas/ Le trésor des Grotoceáns, que se passa no fundo do mar. Isso complica ainda mais a animação, porque, além do cuidado dado a sua tridimensionalidade, haverá a preocupação constante para com o efeito especial de locomoção dos personagens sob as águas. Além dessas técnicas especificas, Co Hoedeman usou duas técnicas de animação num mesmo filme, a de bonecos feitos com massa de modelar e de areia, em Castelo de Areia. Neste filme, alcançou uma plasticidade muito suave dos bonecos, tanto na sua forma como nos movimentos.

 

UM CASTELO DE AREIA E MASSA DE MODELAR

historia-da-animacao-6-sand-castleCastelo de Areia conta uma história sublime. Um homenzinho de areia tem mágica nas mãos: esculpe bizarros seres de areia e dá-lhes vida. Depois, em conjunto, estes seres constroem um castelo, uma cidade no meio do deserto, e se rejubilam com o feito. Mas, de repente, surge o inesperado: o vento sopra e destrói todo o castelo de areia. Esta estória simples, realizada com muita suavidade e toque elegante de humor, desperta muitas interpretações e emociona, porque, mesmo para os mais desatentos, ela fala da vida. E, afinal de contas, quem nesta vida não fez um castelo de areia, ou, sem querer, um dia construiu um e veio o vento e…? Castelo de Areia, ao mesmo tempo profundo e acessível a todos, se dirige tanto a adultos como a crianças.

Um filme de animação realizado com areia traz efeitos surpreendentes. Animação com areia é em geral realizada da seguinte forma: sobre uma placa de vidro transparente ou fosco se coloca a areia, que pode ser de diversas cores. Depois, começa-se a desenhar na areia, com a própria mão ou com acessórios, assim como rabiscamos na areia da praia. Para se filmar quadro-a-quadro, ou seja, para fazer um filme de animação com areia, logicamente você disporá uma câmara sobre esta placa de vidro, com iluminação por baixo da placa. O artista irá “movendo” os desenhos pelo simples método de desenhar uma posição na areia, fotografar e, em seguida, apagar e desenhar a mesma figura noutra posição — e ir repetindo esta ação até alcançar a seqüência de movimentos desejada.

A iluminação por baixo, ou traseira, evidenciará as diversas camadas de areia que, assim, adquirem sobretons de acordo com a incidência da luz. Pode-se filmar também com iluminação por cima, ou dianteira, mas, com luz traseira, os resultados são mais espetaculares. Tais resultados podem ser observados nos filmes realizados para o NFBC por Caroline Leaf, The Metamorphosis of Mr. Samsa, baseado no célebre conto de Franz Kafka, e em Sand.

The Metamorphosis of Mr. Samsa, de Caroline Leaf. Animação de areia, com iluminação traseira.

The Metamorphosis of Mr. Samsa, de Caroline Leaf. Animação de areia, com iluminação traseira.

 

Castelo de Areia utiliza uma técnica muito especial que mistura bonecos de massa de modelar com areia — e o resultado é obra-prima capaz de comover os mais insensíveis ao dito cinema para crianças. Neste filme, no caso da animação da areia, ele usou luz por cima, como deve ser para filmagem de bonecos — e usou luz por cima pelo fato da areia compor o cenário por onde os bonequinhos de massa de modelar se movimentam diante da câmara, adaptada para filmar quadro-a-quadro, sobre o tripé, como numa filmagem normal, com atores ao vivo.

The Sand Castle by Co Hoedeman, National Film Board of Canada

Trabalhar com massa de modelar requer certo cuidado, pois os bonecos se quebram facilmente. Para evitar esse transtorno na hora da filmagem, Co Hoedeman fez uma armação de arame, bem flexível, e colocou dentro do boneco. Dessa forma, utilizando massa de modelar (para fazer os bonecos) e areia (para construir as dunas e cenários), ele conseguiu com Castelo de Areia resultados surpreendentes na área da animação tridimensional.

Co Hoedeman utiliza também bonecos feitos de espuma plástica, e também utiliza por dentro uma armação de arame flexível, que “arma” melhor a posição do boneco a cada movimento que o animador deseja dele, como o fez em Le trésor des Grotoceáns.

Outro filme muito interessante de CH é A Dança das Bonecas Russas/ Matrioska, onde anima aquelas bonequinhas russas que vêm umas dentro das outras, ao compasso de música especial.

Há ainda Tchou Tchou, onde constrói cenários com cubos de madeira, bem como figuras, e anima personagens desenhados dentro destes cubos. O que ele consegue, aí, é um processo em que alia animação bidimensional com tridimensional.

Matrioska, de Co Hoedeman

Tchou Tchou alia animação bidimensional e tridimensional

 

Além dos filmes citados, Co Hoedeman dirigiu um série de seis filmes, contando lendas esquimós, todos de bonecos, como Le hibou et le corbeau, Le hibou et le lemming, L’homme et le géant, Lumaag e Le mariage du hibou, e ainda La derive des continents, Minha Bola/Maboule e Mascarada. Existe também um filme sobre ele, Co Hoedeman, Animador, dirigido por Nico Grama, em que ele aparece de tesoura em punho esculpindo bonecos de esponja ou em sua fazenda com a família e os animais.

 

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