{"id":3914,"date":"2015-11-23T21:37:22","date_gmt":"2015-11-24T00:37:22","guid":{"rendered":"http:\/\/faustojunior.com\/blog\/?p=3914"},"modified":"2015-11-23T21:42:00","modified_gmt":"2015-11-24T00:42:00","slug":"entrevista-sergio-machado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/entrevista-sergio-machado\/","title":{"rendered":"Entrevista: S\u00e9rgio Machado"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em sua edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 388 de 22 de novembro de 2015 a revista Muito, encarte dominical do jornal A Tarde, apresenta entrevista com o cineasta baiano S\u00e9rgio Machado, diretor de filmes como <em>Cidade Baixa<\/em> (2005) e <em>Quincas Berro D&#8217;\u00c1gua<\/em> (2010). Entrevistado durante o Panorama Internacional Coisa de Cinema, ele fala sobre pol\u00edtica, quest\u00f5es sociais e, claro, cinema.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-3915\" src=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/muito_sergio_machado.jpg\" alt=\"muito_sergio_machado\" width=\"128\" height=\"167\" \/>Reportagem:<\/strong>\u00a0Eron Rezende<br \/>\n<strong>Fotos:<\/strong> Fernando Vivas<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0<a href=\"http:\/\/atarde.uol.com.br\/muito\/noticias\/1728503-a-critica-ao-bolsa-familia-e-desinformacao\" target=\"_blank\">http:\/\/atarde.uol.com.br\/muito\/noticias\/1728503-a-critica-ao-bolsa-familia-e-desinformacao<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 class=\"titMateria colorEnt\" style=\"text-align: center;\">&#8220;A cr\u00edtica ao Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 desinforma\u00e7\u00e3o&#8221;<\/h2>\n<p>S\u00e9rgio Machado, 47, se diz p\u00f3s-graduado em Brasil. Assistente de dire\u00e7\u00e3o nos filmes <em>Abril despeda\u00e7ado<\/em> (2002) e<em> Central do Brasil<\/em> (1998), o ent\u00e3o aspirante a diretor cruzou o Nordeste atr\u00e1s de loca\u00e7\u00f5es e atores. Dez anos depois, Machado ampliou a geografia e se debru\u00e7ou sobre as cinco regi\u00f5es do pa\u00eds atr\u00e1s dos beneficiados do programa Bolsa Fam\u00edlia. A viagem, al\u00e9m de &#8220;uma fotografia mais n\u00edtida sobre os brasileiros&#8221;, como ele diz, rendeu-lhe o document\u00e1rio <em>Aqui deste lugar<\/em>, lan\u00e7ado no m\u00eas passado em S\u00e3o Paulo e apresentado na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador. O longa, ainda sem previs\u00e3o de estreia comercial na Bahia, tem suscitado paix\u00f5es. &#8220;\u00c9 um filme feito para entender as mudan\u00e7as sociais da \u00faltima d\u00e9cada, n\u00e3o \u00e9 partid\u00e1rio&#8221;, diz S\u00e9rgio Machado, que ganhou a pecha de &#8220;petista&#8221; e &#8220;marqueteiro de Dilma&#8221;. A produ\u00e7\u00e3o \u00e9 uma gota na torrente que a carreira do diretor de<em> Cidade Baixa<\/em> (2005), <em>Quincas Berro d&#8217;\u00c1gua<\/em> (2010) e <em>Tudo que aprendemos juntos<\/em> (2015) &#8211; premiado, no in\u00edcio desde m\u00eas, na Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo &#8211; deve se transformar nos pr\u00f3ximos anos. Em confec\u00e7\u00e3o em sua agenda est\u00e3o o document\u00e1rio <em>A luta do s\u00e9culo<\/em>, sobre a disputa entre os pugilistas Holyfield e Todo Duro, o drama <em>O adeus do comandante<\/em>, baseado no livro de Milton Hatoum, e a anima\u00e7\u00e3o Arca de No\u00e9, produzida por Walter Salles. &#8220;Tenho trabalhado intensamente. Como nunca, talvez. Mas cinema \u00e9 algo louco. Voc\u00ea faz hoje para exibir daqui a dois, tr\u00eas anos&#8221;. \u00c0 <strong>Muito<\/strong>, Machado fala sobre tempo, pol\u00edtica e luta de classes.<\/p>\n<div class='cow_johnson' style='padding:15px;margin-bottom:15px;float:left;margin-right:15px;width:640px;color:#666666!important;font-family:\"Segoe UI\";font-size:14px!important;line-height:20px!important;background:#bcbdb4;'> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-3918\" src=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Abril_despeda\u00e7ado-1.jpg\" alt=\"Abril_despeda\u00e7ado-1\" width=\"451\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Abril_despeda\u00e7ado-1.jpg 451w, https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Abril_despeda\u00e7ado-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><strong>Cena de <em>Abril Despeda\u00e7ado<\/em>, no qual foi assistente de dire\u00e7\u00e3o, e dos seus filmes <em>Cidade Baixa<\/em>, <em>Quincas Berro D&#8217;\u00c1gua<\/em>, <em>Tudo que Aprendemos Juntos<\/em> e <em>Aqui Deste Lugar<\/em><\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3922\" src=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/cidade-baixa-300x169.jpg\" alt=\"cidade-baixa\" width=\"280\" height=\"158\" srcset=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/cidade-baixa-300x169.jpg 300w, https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/cidade-baixa.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/>\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3923\" src=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/quincas_berro_dagua-300x169.jpg\" alt=\"quincas_berro_dagua\" width=\"280\" height=\"158\" srcset=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/quincas_berro_dagua-300x169.jpg 300w, https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/quincas_berro_dagua.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/>\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3924\" src=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/tudo_que_aprendemos_juntos-300x169.jpg\" alt=\"tudo_que_aprendemos_juntos\" width=\"280\" height=\"158\" srcset=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/tudo_que_aprendemos_juntos-300x169.jpg 300w, https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/tudo_que_aprendemos_juntos.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/>\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3925\" src=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/aqui_deste_lugar-300x169.jpg\" alt=\"aqui_deste_lugar\" width=\"280\" height=\"158\" srcset=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/aqui_deste_lugar-300x169.jpg 300w, https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/aqui_deste_lugar.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/>\u00a0 <\/div><div style=\"clear:both;\"><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O document\u00e1rio <em>Aqui deste lugar<\/em>\u00a0foi finalizado h\u00e1 um ano e foca os brasileiros que deixaram a pobreza extrema, via Bolsa Fam\u00edlia. Hoje, essa \u00e9 a parcela da popula\u00e7\u00e3o que mais sofre reflexos da crise econ\u00f4mica. O filme n\u00e3o pode soar como um retrato brando de um Brasil pr\u00e9-crise?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei at\u00e9 que ponto o atual momento pol\u00edtico mexe na percep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Quando come\u00e7amos o document\u00e1rio, a Dilma era a presidente mais popular da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Agora, est\u00e1 do jeito que est\u00e1. Ou as pessoas amam ou odeiam. Curioso \u00e9 que o filme ficou pronto no ano passado e n\u00f3s n\u00e3o quisemos lan\u00e7ar porque havia as elei\u00e7\u00f5es. Poderia parecer que a gente queria fazer algum tipo de defesa pol\u00edtica. Diz\u00edamos: &#8220;Vamos esperar a poeira baixar&#8221;. A poeira nunca baixou. Mas \u00e9 fundamental entender que, com ou sem crise econ\u00f4mica, existe uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica. O Bolsa Fam\u00edlia trouxe uma mudan\u00e7a de autoestima para as pessoas. E isso n\u00e3o acaba de um ano para o outro.<\/p>\n<p><strong>Por que acha que tantos brasileiros questionam o financiamento &#8211; ou a pr\u00f3pria validade &#8211; do Bolsa Fam\u00edlia?<\/strong><br \/>\nPrefiro acreditar que seja desinforma\u00e7\u00e3o. O cara que mora numa mans\u00e3o, tem cinco carros, uma lancha e acha errado ter um programa que vai dar 70 reais por m\u00eas para algu\u00e9m n\u00e3o morrer de fome&#8230; dizem que o Bolsa Fam\u00edlia vicia, que o beneficiado fica pregui\u00e7oso. Mas o que vi foi o contr\u00e1rio. As pessoas trabalham. E h\u00e1 uma falsa ideia de que o Bolsa Fam\u00edlia supre todas as necessidades. O programa d\u00e1 o m\u00ednimo. O m\u00ednimo para n\u00e3o se ter fome. Quero acreditar que todo esse inc\u00f4modo em rela\u00e7\u00e3o ao Bolsa Fam\u00edlia seja porque muitos de n\u00f3s ainda n\u00e3o viu algu\u00e9m passando fome.<\/p>\n<p><strong>Parte desse inc\u00f4modo n\u00e3o vem da impress\u00e3o de que o progresso em rela\u00e7\u00e3o a outro aspecto essencial para a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade, a educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o andou na mesma velocidade?<\/strong><br \/>\nSim, mas esse inc\u00f4modo n\u00e3o pode sinalizar a exclus\u00e3o dos programas de assist\u00eancia social. N\u00e3o sou defensor de partido. N\u00e3o sou membro do PT. Mas acredito que nada funciona se as pessoas est\u00e3o com fome. Acho que, sim, falta um lastro. Um contraste que percebi ao fazer o document\u00e1rio foi entre duas cidades pr\u00f3ximas, no Cear\u00e1 e no Piau\u00ed. Separadas por 50 quil\u00f4metros e por um mundo. Em Tau\u00e1, no Cear\u00e1, voc\u00ea tem a sensa\u00e7\u00e3o de progresso e quando pergunta &#8220;quais s\u00e3o seus sonhos?&#8221; todos t\u00eam algo a dizer. Em Aparecida, no Piau\u00ed, repet\u00edamos a pergunta e receb\u00edamos o sil\u00eancio. A diferen\u00e7a est\u00e1 na educa\u00e7\u00e3o. Na cidade cearense h\u00e1 escolas bem equipadas, cursos do Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino T\u00e9cnico). Na cidade do Piau\u00ed, n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_bo6lSlnVYc\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>O economista Ricardo Paes de Barros, um dos mentores do Bolsa Fam\u00edlia, diz que a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a falta de din\u00e2mica. N\u00e3o reproduzimos o que d\u00e1 certo&#8230;<\/strong><br \/>\nExatamente. Por que n\u00e3o reproduzir, em Aparecida, o modelo de Tau\u00e1? H\u00e1 dez anos, a gente tinha mais pobres do que analfabetos. Todo mundo acreditava que diminuir o analfabetismo seria mais f\u00e1cil ou r\u00e1pido, porque todos sabiam o que fazer. Mas todos acreditavam que reduzir a pobreza seria mais complexo. Agora, o Brasil tem menos gente na mis\u00e9ria do que analfabetos. E quando voc\u00ea tem educa\u00e7\u00e3o, a coisa flui. Em Tau\u00e1, e em cidades vizinhas, as pessoas fervilham de ideias. H\u00e1 tr\u00eas anos, toco um projeto de oficinas cinematogr\u00e1ficas na regi\u00e3o com (os diretores) Marcelo Gomes e Karim A\u00efnouz, e \u00e9 uma ebuli\u00e7\u00e3o forte.<\/p>\n<p><strong>Como funciona esse projeto?<\/strong><br \/>\nEle est\u00e1 ligado ao (Centro Cultural) Drag\u00e3o do Mar. A cada ano, a gente trabalha com seis diretores estreantes. Nem sempre s\u00e3o jovens. J\u00e1 teve gente de 60 anos. Desenvolvemos com eles roteiros, longas. E muitos j\u00e1 foram premiados. Meu sonho de vida \u00e9 desenvolver isso na Bahia.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 apresentou a ideia aqui?<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 falei com muita gente. Ainda n\u00e3o teve efeito, mas n\u00e3o perdi a esperan\u00e7a. Seria uma forma de movimentar o cinema baiano. Vendo o que acontece em Pernambuco ou no Rio de Janeiro, sinto que o movimento de cinema, na Bahia, ainda n\u00e3o \u00e9 do tamanho que o estado merece.<\/p>\n<p><strong>O n\u00facleo de cinema de que voc\u00ea faz parte, planejado para 2016, na Bahia, n\u00e3o ser\u00e1 uma forma de fomentar o cinema local?<\/strong><br \/>\n\u00c9, no ano que vem, eu, L\u00e1zaro (Ramos), Wagner (Moura), (o cineasta) Bernard Attal e um grupo de produtores e roteiristas pretendemos preparar seis roteiros de longas. \u00c9 uma parceria com produtoras locais, patrocinada pela Ancine.<\/p>\n<p><strong>Os filmes abordar\u00e3o Salvador?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o necessariamente. O importante \u00e9 que os roteiros ser\u00e3o produzidos na cidade, com gente da cidade. Mas eu adoraria me debru\u00e7ar sobre Salvador novamente. J\u00e1 moro em S\u00e3o Paulo h\u00e1 alguns anos e sempre volto para escrever. Passo tr\u00eas, quatro meses isolado na Praia do Forte. N\u00e3o gosto de perder o v\u00ednculo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea come\u00e7ou no cinema num momento em que as dificuldades da era Collor come\u00e7avam a ficar para tr\u00e1s. Como avalia o mercado nacional desde ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nExistiam dois polos muito fr\u00e1geis no Brasil. O primeiro era o desenvolvimento de projetos. Isso melhorou muito. O outro era a distribui\u00e7\u00e3o. E esse continua um problema. D\u00e1 mais trabalho lan\u00e7ar um filme do que fazer tr\u00eas no Brasil. \u00c9 uma luta. Outro dia, conversando com (o diretor) Hector Babenco, fal\u00e1vamos da energia necess\u00e1ria para lan\u00e7ar um filme. Eu acho que regulamentar o mercado de exibi\u00e7\u00e3o para impedir a monocultura precisa ser o pr\u00f3ximo passo do cinema brasileiro.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea viajou pelo Nordeste em diferentes momentos da carreira. Sobre a \u00faltima viagem, disse que viu uma regi\u00e3o em que cavalos foram substitu\u00eddos por motocicletas. Essa mudan\u00e7a de cen\u00e1rio \u00e9 apenas uma atualiza\u00e7\u00e3o de velhos contrastes?<\/strong><br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil responder. Nos anos 1990, viajei durante meses por alguns dos lugares mais isolados do pa\u00eds em busca de loca\u00e7\u00f5es e elenco para Central do Brasil. No in\u00edcio dos anos 2000, fiz isso para Abril despeda\u00e7ado. E, agora, cruzei o Nordeste em busca de loca\u00e7\u00f5es para um \u00e9pico sobre a hist\u00f3ria de Padre C\u00edcero, projeto que, por enquanto, est\u00e1 parado. H\u00e1 uma mudan\u00e7a clara. Cidades com energia el\u00e9trica, antenas parab\u00f3licas, celulares. H\u00e1 uma tend\u00eancia nossa, de quem vive nos centros urbanos ou tem n\u00edvel de escolaridade maior, de condenar essa ascens\u00e3o social pelo consumo. Mas todos n\u00f3s j\u00e1 temos as nossas geladeiras, celulares e TVs a cabo em casa. Claro, uma mudan\u00e7a que deveria vir acompanhada de outras, mas que, sozinha, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 pouco. O que acredito \u00e9 que esteja no ar, hoje, certa insubordina\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea pode ter cidades nordestinas dominadas por fam\u00edlias de pol\u00edticos, por oligarquias, ou por uma tradi\u00e7\u00e3o castradora, mas elas est\u00e3o ficando raras. O Nordeste bovino, atrasado e olig\u00e1rquico \u00e9 algo da mente de quem n\u00e3o o conhece.<\/p>\n<p><strong>Uma pesquisa da soci\u00f3loga Walqu\u00edria Le\u00e3o Rego e do fil\u00f3sofo Alessandro Pinzani, de 2013, mostrou que 70% das mulheres beneficiadas por programas sociais veem como um favor, e n\u00e3o como um direito. Essa percep\u00e7\u00e3o permanece?<\/strong><br \/>\nSim, mas, aos poucos, as pessoas est\u00e3o sendo informadas. E h\u00e1 uma\u00a0mudan\u00e7a clara de concep\u00e7\u00e3o entre gera\u00e7\u00f5es. Os filhos compreendem quais s\u00e3o seus direitos. N\u00e3o aceitam uma divis\u00e3o por castas e questionam o lugar da pobreza. H\u00e1 um discurso de maior autonomia, liberdade, independ\u00eancia. Talvez seja o que mais assuste os que s\u00e3o contra os avan\u00e7os sociais da \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p><strong>Uma tecla batida nos \u00faltimos meses \u00e9 a de que o Brasil est\u00e1 polarizado &#8211; esquerda x direita, ricos x pobres, sul x nordeste. Concorda com essa polariza\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 um acirramento de opini\u00f5es. Essa histeria, esse \u00f3dio que despolitiza, cria um cen\u00e1rio perigoso para qualquer um dos lados que lance m\u00e3o desse discurso. N\u00e3o vejo o pa\u00eds dividido. Na tese do pa\u00eds dividido, onde entram os milh\u00f5es que n\u00e3o votaram nem em Dilma nem em A\u00e9cio? Acho que a narrativa da polariza\u00e7\u00e3o serve muito bem a alguns interesses, mas \u00e9 falha para a interpreta\u00e7\u00e3o da atual realidade do pa\u00eds. Acho que o pol\u00edtico que n\u00e3o for capaz de discutir pol\u00edtica e sofisticar seus argumentos na hora de disputar o voto n\u00e3o chegar\u00e1 muito longe.<\/p>\n<p><strong>Em setembro, o escritor Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o publicou um texto intitulado <em>Quem vai filmar o caos nojento da pol\u00edtica<\/em>? Por que o nosso cinema, embora trate de nossas feridas sociais, como em Que horas ela volta? e O Som ao redor, ainda se volta pouco para o caos em Bras\u00edlia?<\/strong><br \/>\nTalvez a gente ainda esteja atr\u00e1s da hist\u00f3ria ou da melhor forma de cont\u00e1-la. Tem algo complicad\u00edssimo que \u00e9 a lei, que s\u00f3 permite que um filme retrate uma pessoa mediante\u00a0 uma autoriza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via. Acho dif\u00edcil o Collor autorizar um filme sobre o Collor. H\u00e1, por outro lado, a fic\u00e7\u00e3o que sugere o que acontece em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea filmaria sobre corrup\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nDaqui a alguns meses, a Gullane Entretenimento iniciar\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de alguns filmes s\u00f3 sobre corrup\u00e7\u00e3o. Eu estarei nesse projeto e, possivelmente, assinarei a dire\u00e7\u00e3o de um filme. A produtora j\u00e1 comprou os direitos autorais de seis livros sobre o tema. H\u00e1 boas chances de se quebrar esse jejum no cinema nacional.<\/p>\n<p><strong>A pol\u00edtica, em Bras\u00edlia, cabe melhor numa chanchada ou num filme trash?<\/strong><br \/>\nBras\u00edlia passeia por muitos g\u00eaneros, mas h\u00e1 sempre um vi\u00e9s dram\u00e1tico. Dirigir um filme sobre as altas rodas, corrup\u00e7\u00e3o e pol\u00edticos ser\u00e1 novo, porque sempre filmei pessoas com poder de decis\u00e3o limitado, que a gente muda de cal\u00e7ada para n\u00e3o encontrar. Meu interesse recai sempre sobre pessoas \u00e0 margem.<\/p>\n<p><strong>E o que o fascina nelas?<\/strong><br \/>\nA possibilidade de mostrar que elas n\u00e3o s\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class='cow_johnson' style='padding:15px;margin-bottom:15px;float:left;margin-right:15px;width:640px;color:#666666!important;font-family:\"Segoe UI\";font-size:14px!important;line-height:16px!important;background:#FFFFFF;'><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/strong><span style=\"color: #222222;\"><!-- relpost-thumb-wrapper --><div class=\"relpost-thumb-wrapper\"><!-- filter-class --><div class=\"relpost-thumb-container\"><style>.relpost-block-single-image, .relpost-post-image { margin-bottom: 10px; }<\/style><h2>Leia tamb\u00e9m:<\/h2><div style=\"clear: both\"><\/div><div style=\"clear: both\"><\/div><!-- relpost-block-container --><div class=\"relpost-block-container relpost-block-column-layout\" style=\"--relposth-columns: 3;--relposth-columns_t: 2; --relposth-columns_m: 2\"><a href=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/entrevista-paula-gomes\/\"class=\"relpost-block-single\" ><div class=\"relpost-custom-block-single\"><div class=\"relpost-block-single-image rpt-lazyload\" aria-hidden=\"true\" role=\"img\" data-bg=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/paula-gomes-155x96.jpg\" style=\"background: transparent no-repeat scroll 0% 0%; 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