{"id":4724,"date":"2016-09-29T22:34:37","date_gmt":"2016-09-30T01:34:37","guid":{"rendered":"http:\/\/faustojunior.com\/blog\/?p=4724"},"modified":"2016-09-29T22:34:37","modified_gmt":"2016-09-30T01:34:37","slug":"entrevista-eryk-rocha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/entrevista-eryk-rocha\/","title":{"rendered":"Entrevista: Eryk Rocha"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O diretor Eryk Rocha (filho de Glauber), em entrevista \u00e0 revista Muito, fala sobre seu filme,\u00a0<em>Cinema Novo<\/em>, vencedor do pr\u00eamio de melhor document\u00e1rio do Festival de Cannes deste ano.<\/p>\n<p><a title=\"Muito - Fernanda Tourinho\" href=\"http:\/\/faustojunior.com\/arquivos\/Muito_ErykRocha.pdf\" target=\"_blank\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-4726\" src=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/muito_eryk-rocha_th.jpg\" alt=\"muito_eryk-rocha_th\" width=\"128\" height=\"167\" \/>Veja entrevista em formato PDF<\/strong><\/a> (1,2 Mb)<br \/>\nTexto: Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/p>\n<p>Revista Muito<br \/>\nedi\u00e7\u00e3o n\u00ba 429 de 25 de setembro de 2016<br \/>\nFonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/atarde.uol.com.br\/muito\/noticias\/1804341-eryk-rocha-quero-pensar-o-cinema-como-traducao-poetica\" target=\"_blank\">http:\/\/atarde.uol.com.br\/muito\/noticias\/1804341-eryk-rocha-quero-pensar-o-cinema-como-traducao-poetica<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<h2 class=\"titMateria colorEnt\">Eryk Rocha: &#8220;Quero pensar o cinema como tradu\u00e7\u00e3o po\u00e9tica&#8221;<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vencedor do pr\u00eamio de melhor document\u00e1rio na edi\u00e7\u00e3o deste ano do Festival de Cannes, Cinema Novo, do diretor Eryk Rocha, pode ser chamado n\u00e3o somente de um filme-tributo ao per\u00edodo mais significativo da cinematografia brasileira, mas de um expurgo. Uma forma de libera\u00e7\u00e3o emocional que o diretor por tr\u00e1s de trabalhos t\u00e3o singulares, como <em>Transeunte<\/em> e <em>Jards<\/em>, consegue transformar em uma an\u00e1lise n\u00e3o did\u00e1tica, mas emocional e cat\u00e1rtica do mais importante movimento de cinema na Am\u00e9rica Latina no s\u00e9culo XX. E isso sem nenhum tra\u00e7o de preciosismo ou pieguice. A obra \u00e9 fruto de um processo quase insano de pesquisa, que consegue apresentar o Cinema Novo atrav\u00e9s de uma narrativa \u00fanica. A partir de um extenso estudo, com cerca de 130 filmes representativos do per\u00edodo, al\u00e9m de trechos de entrevistas com \u00edcones como Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirszman e\u00a0 Glauber Rocha, Eryk Rocha, em parceria com o montador Renato Vallone, traz em seu document\u00e1rio uma teia informativa que \u00e9 constru\u00edda atrav\u00e9s do equil\u00edbrio entre as imagens ic\u00f4nicas e os depoimentos marcantes.\u00a0 Nesta entrevista, o diretor compartilha um pouco dessa experi\u00eancia, trazendo a sua impress\u00e3o acerca de um Brasil que passa por um per\u00edodo conturbado e que encontra eco justamente na fase abordada pelos representantes do movimento que ele soube focalizar com maestria em Cinema Novo, que ser\u00e1 exibido este m\u00eas no Festival de Bras\u00edlia e estreia nacionalmente em novembro.<\/p>\n<p><strong>Como se deu o processo de pesquisa e escolha dos longas mais representativos do movimento do Cinema Novo a serem utilizados em seu filme?<\/strong><br \/>\nFoi a uma pesquisa de anos at\u00e9 iniciarmos o processo de montagem. Importante dizer que\u00a0essa\u00a0pesquisa contou com o apoio fundamental das fam\u00edlias dos cineastas. Os filhos do Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, e de cineastas vivos como Nelson Pereira dos Santos e Carlos Diegues, dentre outros. E, claro, dos meus irm\u00e3os filhos do Glauber. N\u00f3s nos debru\u00e7amos principalmente na produ\u00e7\u00e3o do Cinema Novo dos anos 1960, que, para mim,\u00a0\u00e9 a d\u00e9cada de ouro do movimento. Apesar de que h\u00e1 algumas exce\u00e7\u00f5es, como, por exemplo, Humberto Mauro e Mario Peixoto, ou na outra ponta dos anos 1970, Iracema, Uma Transa Amaz\u00f4nica (longa dirigido por Jorge Bodanzky e Orlando Senna e lan\u00e7ado em 1975). Vi e revi muitos filmes. Esse trabalho foi realizado em parte com o montador Renato\u00a0Vallone, que montou Cinema Novo. Durante a\u00a0montagem,\u00a0tamb\u00e9m\u00a0descobrimos filmes novos que fomos\u00a0incorporando. Al\u00e9m dos filmes, tamb\u00e9m pesquisamos em diversos canais de TV e arquivos do Brasil e do mundo. Descobrimos alguns materiais raros, como, por exemplo, os do INA (Institut National de l&#8217;Audiovisuel)\u00a0franc\u00eas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tocou no ponto da montagem. H\u00e1 um esmero na jun\u00e7\u00e3o das imagens, uma vez que elas criam uma\u00a0 narrativa. Poderia falar um pouco desse processo?<\/strong><br \/>\nCinema Novo foi constru\u00eddo na montagem. Foram nove meses intensos de inven\u00e7\u00e3o, que contou com o belo trabalho do montador Renato Vallone. A montagem \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o que pulsa essa obra. Usamos mais de 130 filmes e acervos diferentes.\u00a0Esse filme nasce a partir de fios, linhas,\u00a0 trechos. Trechos de caminhos, trechos de sonhos, trechos de m\u00fasicas, trechos de est\u00f3rias,\u00a0 trechos de gestos, trechos de filmes, trechos interrompidos. Essa multid\u00e3o de trechos cria uma melodia, uma nova dramaturgia. Um corpo vivo musical de novos sentidos, como dizia Humberto Mauro: &#8220;Cinema \u00e9 cachoeira\u2026&#8221;<\/p>\n<p><strong>A obra, assim como em outros document\u00e1rios seus, como\u00a0Campo de Jogo\u00a0e\u00a0Jards,\u00a0evita uma estrutura convencional e batida de cabe\u00e7as falantes, preferindo deixar os depoimentos para entrevistas de arquivo e imagens dos filmes, o que gera um di\u00e1logo bem eficiente para com o p\u00fablico. Imagino que planejar e criar essa rima visual e narrativa tenha sido algo bastante dif\u00edcil.<\/strong><br \/>\nNem sempre \u00e9 l\u00edmpido e racional o que nos move em dire\u00e7\u00e3o a realizar um filme. H\u00e1 sempre uma explica\u00e7\u00e3o parcial, mas as for\u00e7as que te movem t\u00eam algo no campo do mist\u00e9rio. Em realidade n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea que faz o filme, \u00e9 o filme que te faz. Os filmes nascem das v\u00edsceras e da profunda necessidade de dizer algo que n\u00e3o pode deixar de ser dito. Acredito que Cinema Novo\u00a0nasce do meu desejo de investigar a hist\u00f3ria cinematogr\u00e1fica, cultural e pol\u00edtica do meu pa\u00eds em cruzamento com minhas ra\u00edzes afetivas. Entender melhor e tentar alumbrar a \u00e9poca em que vivo. Penso que o legado do movimento do cinema novo \u00e9 muito rico, f\u00e9rtil e inspirador para se pensar o Brasil hoje, e pensar o cinema\u00a0como pot\u00eancia, estado de esp\u00edrito, e tradu\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e pol\u00edtica de uma realidade em ebuli\u00e7\u00e3o como \u00e9 a brasileira.<\/p>\n<p><strong>O filme n\u00e3o busca ser did\u00e1tico acerca do movimento do Cinema Novo. Era seu plano desde o come\u00e7o trazer esse tipo de apresenta\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEsse filme \u00e9 fruto de um encontro entre gera\u00e7\u00f5es. Esse n\u00e3o \u00e9 um filme sobre o\u00a0Cinema Novo\u00a0nem que ambiciona explic\u00e1-lo, mas atrav\u00e9s e com ele, que eclode a partir de um caldeir\u00e3o de vozes, afetos e po\u00e9ticas.\u00a0Fazer esse filme me provocou o desafio de superar o aspecto aned\u00f3tico-historicista-did\u00e1tico e dialogar com o movimento no presente. O desejo do filme foi\u00a0olhar o cinema\u00a0novo como um estado de esp\u00edrito compulsivo de cria\u00e7\u00e3o que revela o embate do artista\/cineasta com seu tempo.\u00a0Como disse\u00a0Glauber, um dos l\u00edderes do movimento: &#8220;Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a explora\u00e7\u00e3o, a pornografia, o tecnicismo, a\u00ed haver\u00e1 um germe do\u00a0Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer proced\u00eancia, pronto a p\u00f4r seu cinema e sua profiss\u00e3o a servi\u00e7o das causas importantes de seu tempo, a\u00ed haver\u00e1 um germe do\u00a0Cinema Novo.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Queria fazer um paralelo entre o per\u00edodo apresentado pelo seu filme, a d\u00e9cada de 1960 e come\u00e7o dos anos 1970, quando fomos v\u00edtimas do golpe militar, com o atual do Brasil, no qual um golpe pol\u00edtico neoliberal se instalou no governo.\u00a0 Para voc\u00ea, temos a mesma perspectiva pessimista que poderiam ter os cineastas do per\u00edodo retratado em\u00a0Cinema Novo?<\/strong><br \/>\nRealizar esse filme \u00e9 lembrar de uma gera\u00e7\u00e3o que vivenciou em carne pr\u00f3pria a ditadura militar, e viu o sonho coletivo de uma revolu\u00e7\u00e3o social e cultural ser interrompido.\u00a0Uma das matrizes que o filme quer revelar \u00e9 a interrup\u00e7\u00e3o que o movimento sofreu a partir do golpe civil-militar de 1964, e, principalmente, o tr\u00e1gico desdobramento do AI 5, em 1968, que interditou a realidade brasileira e instaurou no pa\u00eds um regime autorit\u00e1rio de terror. Nesse momento, estamos vivenciando no Brasil uma ruptura do processo democr\u00e1tico, um golpe parlamentar-jur\u00eddico-midi\u00e1tico e, novamente, uma interrup\u00e7\u00e3o. Por mais erros que tenha cometido o PT e esse\u00a0projeto nos \u00faltimos quatorze anos (e foram muitos!), n\u00e3o \u00e9 justo o que\u00a0est\u00e1 acontecendo. Hoje estamos num momento muito dif\u00edcil para o pa\u00eds. Apesar de serem contextos hist\u00f3ricos distintos, 1964 e 2016, h\u00e1 graves semelhan\u00e7as entre esses dois processos. Ambos s\u00e3o momentos de lutas, de embates, de convuls\u00f5es, de ruptura e de viol\u00eancia.\u00a0Na Am\u00e9rica Latina, conhecemos bem esses ciclos de interrup\u00e7\u00f5es e recome\u00e7os. Acredito que esses problemas permanecem vivos na estrutura da sociedade escravocrata brasileira que ainda n\u00e3o conseguiu superar os entraves at\u00e1vicos do subdesenvolvimento e as marcas do passado colonialista. H\u00e1 um embri\u00e3o de democracia, mas ainda almejamos desenvolver uma democracia social mais plena,\u00a0 mais real e consistente. Por isso a necessidade de que arte e pol\u00edtica estejam em di\u00e1logo, elevando a cultura a uma dimens\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds e do continente latino-americano.<\/p>\n<p><strong>Temos um novo presidente n\u00e3o reconhecido por boa parte da popula\u00e7\u00e3o. Um governo que tem entre seus ministros investigados pela pol\u00edcia e um chefe do executivo impopular, que teve como um dos seus primeiros atos a extin\u00e7\u00e3o do MinC (apesar de ter voltado atr\u00e1s um tempo depois). Como cineasta e fomentador de cultura, te desanima nosso horizonte pol\u00edtico?\u00a0<\/strong><br \/>\nHoje o debate pol\u00edtico voltou a ocupar um lugar crucial no Brasil. Estamos vivendo um verdadeiro transe pol\u00edtico com contornos tr\u00e1gicos. Essa alta tens\u00e3o do pa\u00eds inevitavelmente afeta o dia a dia, o corpo, e deixa a sensibilidade \u00e0 flor da pele. O cinema tem o poder de criar mem\u00f3ria e de ser testemunha desse momento. Esse estado do pa\u00eds reflete novas correntes do nosso cinema, e acho que a tend\u00eancia \u00e9 que isso se intensifique, se aprofunde, j\u00e1 que os desdobramentos e acirramentos das lutas pol\u00edticas e sociais s\u00e3o imprevis\u00edveis. Cada \u00e9poca tem suas formas de express\u00e3o. E hoje o desafio \u00e9 saber como o cinema brasileiro vai refletir e atuar nesse processo novo do pa\u00eds. Como vai traduzir o pa\u00eds na tela. Isso me inquieta e me instiga como realizador, al\u00e9m de me provocar a filmar esse &#8220;tempo hist\u00f3rico&#8221;, esse tempo de ru\u00ednas, t\u00e3o estranho o qual habitamos. Acredito que\u00a0uma das for\u00e7as origin\u00e1rias do movimento do\u00a0Cinema Novo\u00a0foi realizar uma potente simbiose entre pol\u00edtica e est\u00e9tica, entre forma e conte\u00fado, uma nova gram\u00e1tica, tudo eclode e irrompe na tela. Nessa perspectiva, me impressionou perceber como v\u00e1rios desses filmes seguem ecoando e dialogando visceralmente com o Brasil contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p><strong>Falando um pouco de Cannes, qual o peso que o pr\u00eamio representa para voc\u00ea? Ser agraciado no mesmo festival onde seu pai, juntamente com Nelson Pereira dos Santos e Cac\u00e1 Diegues, esteve presente em 1964.\u00a0<\/strong><br \/>\nEstamos\u00a0muito felizes com o pr\u00eamio de Cannes. Eram dezenove document\u00e1rios competindo para um \u00fanico premio. Ent\u00e3o, \u00e9 um lindo reconhecimento. Ainda mais tendo participado dessa sess\u00e3o ao lado de cineastas como Jim Jarmurch, Rithy Panh, Laura Poitras, Bertrand Tavernier, entre outros. Isso ajuda a impulsionar o filme no sentido dele ser mais visto e descoberto pelas pessoas.\u00a0Cannes \u00e9 uma janela para o mundo. Abre para outros festivais, lan\u00e7amentos em outros pa\u00edses, criticas&#8230; Esse lado pragm\u00e1tico me deixa muito feliz. A chance de apresentar ou reapresentar essa gera\u00e7\u00e3o cinemanovista, seus filmes e pensamento para o Brasil e para o mundo.<\/p>\n<p><strong>Nessa edi\u00e7\u00e3o do festival, na sess\u00e3o de Cinema Novo, voc\u00ea leu uma carta de protesto denunciando a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil e vimos o elenco de Aquarius, de Kleber Mendon\u00e7a Filho, apresentar um protesto bem pertinente. O cinema, mais do que entretenimento, \u00e9 reflex\u00e3o, \u00e9 trazer para o p\u00fablico uma vis\u00e3o apurada do seu tempo. Qual sua opini\u00e3o acerca desse poder do cinema na mobiliza\u00e7\u00e3o e, em compara\u00e7\u00e3o, nas produ\u00e7\u00f5es abordadas em\u00a0Cinema Novo?<\/strong><br \/>\nConsidero corajosa e importante a\u00a0manifesta\u00e7\u00e3o de Kleber Mendon\u00e7a e de toda a\u00a0equipe de Aquarius. Essa\u00a0manifesta\u00e7\u00e3o foi um desejo e express\u00e3o em comum de muitos\u00a0brasileiros que\u00a0coincidiram nesse momento hist\u00f3rico no mesmo lugar. A gera\u00e7\u00e3o do cinema novo desejou inserir o cinema e a arte em um projeto maior de pa\u00eds. Esse confronto do cidad\u00e3o\/artista com seu tempo foi algo que sempre me mobilizou e me apaixonou, que me levou a fazer cinema. A cren\u00e7a do filme foi lan\u00e7ar o\u00a0movimento do Cinema Novo\u00a0no presente, no momento, e indagar como o artista, hoje, pode se engajar nos processos pol\u00edticos cotidianos do seu povo. O Brasil ainda n\u00e3o passou por um processo b\u00e1sico de compreender a cultura e a educa\u00e7\u00e3o como for\u00e7as estrat\u00e9gicas para o seu desenvolvimento, incluindo a complexidade dos muitos povos que habitam esse pa\u00eds que, de modo singular, chamamos Brasil. Creio que hoje n\u00f3s precisamos com urg\u00eancia libertar a imagina\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novos projetos pol\u00edticos e po\u00e9ticos. O cinemanovista Paulo C\u00e9sar Saraceni &#8211; diretor de\u00a0 Porto das Caixas, Bahia de todos os sambas e A casa assassinada, entre outros \u2014\u00a0 dizia que &#8220;queria fazer um cinema pol\u00edtico que fosse a melhor poesia.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Para voc\u00ea, qual o legado movimento do Cinema Novo?<\/strong><br \/>\nAcho que o\u00a0Cinema Novo deixou uma marca indel\u00e9vel, participando da forma\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio do pa\u00eds, e deixou uma heran\u00e7a de coragem e inven\u00e7\u00e3o para as novas gera\u00e7\u00f5es. Os filmes do movimento em geral s\u00e3o carregados de um sentido de urg\u00eancia. A realidade convulsionada e o misticismo brasileiro estimularam um novo modo de filmar. Uma c\u00e2mera na m\u00e3o e uma ideia na cabe\u00e7a. Os filmes n\u00e3o respeitavam a fronteira entre document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o. Acho que isso \u00e9 uma marca muito presente em certa vertente do cinema contempor\u00e2neo. O Cinema Novo testemunhou a passagem de um Brasil rural para um pa\u00eds urbano. Do sert\u00e3o \u00e0s favelas. Testemunhou um pa\u00eds em muta\u00e7\u00e3o. Criou uma nova linguagem para revelar um pa\u00eds nascente. Hoje, como vamos testemunhar esse Brasil em movimento?<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Oj7NZp1WBVs?rel=0\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>CR\u00cdTICA<\/p>\n<p><strong>Os muitos tempos Glauber<\/strong><br \/>\nJo\u00e3o Paulo Barreto<\/p>\n<p>Em Cinema Novo,\u00a0 Eryk Rocha consegue a proeza de apresentar em 90 minutos o mais importante movimento cinematogr\u00e1fico da Am\u00e9rica Latina no s\u00e9culo XX. No entanto, maior proeza est\u00e1 no modo como o faz. Trata-se n\u00e3o s\u00f3 de um filme-tributo, mas de uma esp\u00e9cie de catarse emocional que o diretor utiliza como meio de trazer ao espectador toda a completude de um f\u00e9rtil per\u00edodo do cinema brasileiro.<\/p>\n<p>O modo que Rocha, junto com o montador Renato Vallone, escolheu para unir\u00a0 imagens simb\u00f3licas\u00a0 de dezenas de filmes-pilares\u00a0\u00a0 \u00e9 o ponto inicial desse acerto. L\u00e1 est\u00e3o trechos de O Desafio, de Paulo Cezar Saraceni; Macuna\u00edma, de Joaquim Pedro de Andrade; Os Cafajestes, de Ruy Guerra; A Falecida, de Leon Hirszman, entre outros. Mas apenas a\u00a0 uni\u00e3o de imagens\u00a0 seria um modo simplista de avaliar o longa.<\/p>\n<p>Cinema Novo \u00e9 mais que isso. A linha narrativa constru\u00edda atrav\u00e9s da jun\u00e7\u00e3o dos trechos, juntamente com os depoimentos, conduz o espectador pela estrutura do movimento, sem didatismo, sem romantiza\u00e7\u00e3o ou preciosismo barato. Vemos a evolu\u00e7\u00e3o daquela fase da cinematografia brasileira atrav\u00e9s da iconografia de seus principais s\u00edmbolos, e de suas declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A proposta \u00e9 apresentar aquele grupo de jovens inconformados e entusiasmados com a possibilidade de construir um cinema nacional que viesse a dialogar com a realidade da \u00e9poca. Porque n\u00e3o somente acerca dos trabalhos oriundos daquele per\u00edodo trata o longa de Eryk. Ele apresenta um panorama de um Brasil que parecia florescer, antes de entrar nas trevas.<\/p>\n<p>Ao reunir os precursores do movimento no \u00e1pice da juventude, n\u00e3o tardamos a nos sentir pesarosos. Talvez por isso a imagem de um Glauber\u00a0 t\u00e3o diferente da que nos acostumamos a ver, com cabelos desgrenhados, barba por fazer e olhar cansado, impressione. Aqui, o rapaz de Vit\u00f3ria da Conquista, com vinte e poucos anos,\u00a0 ainda estava para confrontar suas desilus\u00f5es e fantasmas.<\/p>\n<p>Na parceria daqueles homens, percebe-se como se construiu a unicidade do per\u00edodo. Trata-se de um encontro de mentes f\u00e9rteis, atentas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, procurando expressar n\u00e3o somente seus pr\u00f3prios anseios, mas os do p\u00fablico. E, nesse processo, o mundo se rende \u00e0quelas mentes criativas, como no momento em que \u00e9 abordado o Festival de Cannes de 1964, quando Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber, e Ganga Zumba, de Cac\u00e1 Diegues, foram exibidos.<\/p>\n<p>O longa \u00e9 brilhante n\u00e3o somente por conseguir criar uma linguagem singular em sua constru\u00e7\u00e3o f\u00edlmica, mas por conseguir registrar para as novas gera\u00e7\u00f5es a import\u00e2ncia do per\u00edodo, Cinema Novo torna-se uma obra densa em seu resultado final. Seu peso, por\u00e9m, rima com uma leveza que encontra paralelo no bal\u00e9 de suas imagens, que, como um caleidosc\u00f3pio, hipnotiza o espectador cin\u00e9filo.\u00a0 Generoso, tem em seus cr\u00e9ditos o modo mais pertinente de compartilhar o m\u00e9rito de seu resultado final. Bravo!<\/p>\n<div class='cow_johnson' style='padding:15px;margin-bottom:15px;float:left;margin-right:15px;width:640px;color:#666666!important;font-family:\"Segoe UI\";font-size:14px!important;line-height:16px!important;background:#FFFFFF;'><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/strong><span style=\"color: #222222;\"><!-- relpost-thumb-wrapper --><div class=\"relpost-thumb-wrapper\"><!-- filter-class --><div class=\"relpost-thumb-container\"><style>.relpost-block-single-image, .relpost-post-image { margin-bottom: 10px; }<\/style><h2>Leia tamb\u00e9m:<\/h2><div style=\"clear: both\"><\/div><div style=\"clear: both\"><\/div><!-- relpost-block-container --><div class=\"relpost-block-container relpost-block-column-layout\" style=\"--relposth-columns: 3;--relposth-columns_t: 2; --relposth-columns_m: 2\"><a href=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/perspectivas-da-animacao\/\"class=\"relpost-block-single\" ><div class=\"relpost-custom-block-single\"><div class=\"relpost-block-single-image rpt-lazyload\" aria-hidden=\"true\" role=\"img\" data-bg=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/live-filtro-de-barro-155x96.png\" style=\"background: transparent no-repeat scroll 0% 0%; width: 155px; height: 96px; aspect-ratio: 1\/1;\"><\/div><div class=\"relpost-block-single-text\"  style=\"height: 32px;font-family: Arial;  font-size: 12px;  color: #333333;\"><h2 class=\"relpost_card_title\">Perspectivas da Anima\u00e7\u00e3o<\/h2><\/div><\/div><\/a><a href=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/cineclube-walter-da-silveira\/\"class=\"relpost-block-single\" ><div class=\"relpost-custom-block-single\"><div class=\"relpost-block-single-image rpt-lazyload\" aria-hidden=\"true\" role=\"img\" data-bg=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/cineclube-walter-da-silveira-155x96.gif\" style=\"background: transparent no-repeat scroll 0% 0%; width: 155px; height: 96px; aspect-ratio: 1\/1;\"><\/div><div class=\"relpost-block-single-text\"  style=\"height: 32px;font-family: Arial;  font-size: 12px;  color: #333333;\"><h2 class=\"relpost_card_title\">Cineclube Walter da Silveira<\/h2><\/div><\/div><\/a><a href=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/o-filme-dos-malucos\/\"class=\"relpost-block-single\" ><div class=\"relpost-custom-block-single\"><div class=\"relpost-block-single-image rpt-lazyload\" aria-hidden=\"true\" role=\"img\" data-bg=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/filme-dos-malucos-155x96.jpg\" style=\"background: transparent no-repeat scroll 0% 0%; width: 155px; height: 96px; aspect-ratio: 1\/1;\"><\/div><div class=\"relpost-block-single-text\"  style=\"height: 32px;font-family: Arial;  font-size: 12px;  color: #333333;\"><h2 class=\"relpost_card_title\">O filme dos malucos<\/h2><\/div><\/div><\/a><\/div><!-- close relpost-block-container --><div style=\"clear: both\"><\/div><\/div><!-- close filter class --><\/div><!-- close relpost-thumb-wrapper --><\/span>\u00a0<\/div><div style=\"clear:both;\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O diretor Eryk Rocha (filho de Glauber), em entrevista \u00e0 revista Muito, fala [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4730,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[149],"tags":[876,394,874,875,275],"class_list":["post-4724","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cinema-2","tag-cinema-novo","tag-entrevista","tag-eryk-rocha","tag-joao-paulo-barreto","tag-revista-muito"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4724","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4724"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4724\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4729,"href":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4724\/revisions\/4729"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4730"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4724"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4724"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4724"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}