{"id":6014,"date":"2018-05-28T15:05:27","date_gmt":"2018-05-28T18:05:27","guid":{"rendered":"http:\/\/faustojunior.com\/blog\/?p=6014"},"modified":"2018-06-30T22:32:15","modified_gmt":"2018-07-01T01:32:15","slug":"entrevista-orlando-senna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/entrevista-orlando-senna\/","title":{"rendered":"Entrevista: Orlando Senna"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De volta \u00e0 Bahia para dirigir dois filmes, o cineasta Orlando Senna, em entrevista \u00e0 revista Muito, fala sobre cinema, m\u00eddias sociais e futuros projetos.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/faustojunior.com\/arquivos\/Muito_OrlandoSenna2018.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-6017 size-full\" src=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/muito_orlando-senna-th.jpg\" alt=\"\" width=\"128\" height=\"155\" \/><\/a><a href=\"http:\/\/faustojunior.com\/arquivos\/Muito_OrlandoSenna2018.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Veja entrevista em formato PDF<\/a><\/strong><br \/>\nReportagem: K\u00e1tia Borges<br \/>\nRevista Muito<br \/>\nedi\u00e7\u00e3o n\u00ba 512 de 27 de maio de 2018.<br \/>\nFonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/atarde.uol.com.br\/muito\/noticias\/1964163-orlando-senna-a-bahia-tem-e-sempre-teve-uma-forte-vocacao-para-o-cinema\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/atarde.uol.com.br\/muito\/noticias\/1964163-orlando-senna-a-bahia-tem-e-sempre-teve-uma-forte-vocacao-para-o-cinema<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<h3><\/h3>\n<h3 class=\"tituloMateria\" style=\"text-align: center;\">Orlando Senna: &#8220;A Bahia tem e sempre teve<br \/>\numa forte voca\u00e7\u00e3o para o cinema&#8221;<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cidad\u00e3o do mundo, Orlando Senna, 78, nascido em Len\u00e7\u00f3is, volta \u00e0 Bahia em junho para dirigir dois filmes: <em><strong>Sol da Bahia<\/strong><\/em> e <strong><em>Longe do Para\u00edso<\/em><\/strong>. Jornalista e cineasta, dirigiu longas como <strong><em>Iracema, Uma Transa Amaz\u00f4nica, Brascuba, Gitirana<\/em><\/strong> e <strong><em>A Idade da \u00c1gua<\/em><\/strong>, que deve ser lan\u00e7ado ainda este ano. Autor de roteiros para TV e cinema, entre eles <strong><em>O Rei da Noite, Coronel Delmiro Gouveia, Abrigo Nuclear, \u00d3pera do Malandro<\/em><\/strong> e <strong><em>Oedipus Major<\/em><\/strong>, seus trabalhos foram premiados nos festivais de Cannes, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Bras\u00edlia e Rio de Janeiro. Pelo car\u00e1ter inovador de <strong><em>Iracema<\/em><\/strong> recebeu o pr\u00eamio Georges Sadoul da Fran\u00e7a e o Grimme da Alemanha. \u00c9 ainda autor dos livros <strong><em>Xana, Ares Nunca Antes Navegados, M\u00e1quinas Er\u00f3ticas, Um Gosto de Eternidade<\/em><\/strong> e <strong><em>Os Len\u00e7\u00f3is e os Sonhos<\/em><\/strong>. Em teatro, assina pelo menos 30 espet\u00e1culos, montados na Bahia, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. Um dos fundadores da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os (Escola de Cuba), foi secret\u00e1rio nacional do Audiovisual, diretor-geral da TV Brasil e presidente da TAL \u2013 Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina, al\u00e9m de diretor de programa\u00e7\u00e3o do CineBrasilTV e conselheiro da Spcine \u2013 Empresa de Cinema e Audiovisual de S\u00e3o Paulo. Atualmente integra o Conselho da Fundaci\u00f3n del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p><strong>Orlando, como est\u00e1 sendo voltar \u00e0 Bahia para gravar dois longas-metragens, depois de tantos anos no Rio de Janeiro?<\/strong><br \/>\nE depois de tantos anos sem dirigir filmes. Foram decis\u00f5es pessoais. Por volta do ano 2000 decidi me afastar da dire\u00e7\u00e3o e dedicar-me a outras interfaces do cinema, como a forma\u00e7\u00e3o de jovens cineastas e a organiza\u00e7\u00e3o de estruturas para produ\u00e7\u00f5es alternativas. Em 2016 senti saudade das c\u00e2meras e planejei algumas realiza\u00e7\u00f5es como diretor, que se tornaram poss\u00edveis devido \u00e0 pol\u00edtica audiovisual brasileira, principalmente \u00e0 lei da TV por assinatura, que facilita o trabalho de cineastas independentes. Nos \u00faltimos meses realizei A Idade da \u00c1gua, que est\u00e1 em fase de finaliza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e tem estreia prevista para o segundo semestre. Em seguida, entre junho e agosto, vou realizar Sol da Bahia, em Salvador. Ambos s\u00e3o na linha do document\u00e1rio-ensaio, um jeito de fazer cinema que se articula entre a verdade dos fatos e uma reflex\u00e3o subjetiva, pessoal, sobre os fatos narrados. E logo depois a fic\u00e7\u00e3o Longe do Para\u00edso, tamb\u00e9m a ser feito na Bahia. Um ano bastante movimentado, mas vai dar tudo certo gra\u00e7as aos excelentes produtores que est\u00e3o comigo nesse barco, que s\u00e3o Hermes Leal e Julie Tseng, em S\u00e3o Paulo, e Solange Lima, na Bahia. Respondendo mais diretamente \u00e0 sua pergunta, voltar \u00e0 Bahia para filmar me traz grande felicidade.<\/p>\n<p><strong>Como v\u00ea a Bahia hoje, j\u00e1 sem o forte estigma da baianidade tur\u00edstica?<\/strong><br \/>\nA Bahia tem e sempre teve uma forte e hist\u00f3rica voca\u00e7\u00e3o para o cinema. Dois mil e dezessete foi um ano excelente para o audiovisual baiano, o melhor em muito tempo. Basta citar os trabalhos de S\u00e9rgio Machado;\u00a0 O Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes; As Cores da Serpente, de Juca Badar\u00f3; A Cidade do Futuro, de Cl\u00e1udio Marques e Mar\u00edlia Hughes; Caf\u00e9 com Canela, de Ary Rosa e Glenda Nic\u00e1cio; Elogio \u00e0 Utopia, de Caio Ara\u00fajo. S\u00f3 para citar alguns que passam longe da baianidade tur\u00edstica e tratam de aspectos contempor\u00e2neos com abordagens e linguagens contempor\u00e2neas. Tamb\u00e9m a mencionar a crescente produ\u00e7\u00e3o de teless\u00e9ries documentais que n\u00e3o s\u00e3o feitas apenas em Salvador e sim, tamb\u00e9m, no interior. Na minha terra, Len\u00e7\u00f3is, h\u00e1 pequenas produtoras locais dedicando-se a isso, como a Montanhas Filmes, de Marcelo Abreu G\u00f3is, realizador da inspirada s\u00e9rie Orquestra do Mundo. Pode-se dizer que a Bahia resgatou sua voca\u00e7\u00e3o, e o progn\u00f3stico \u00e9 que produza cada vez mais e que reflita cada vez mais nossa diversidade cultural e nossa identidade mesti\u00e7a.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" class=\"d-block img-responsive\" src=\"http:\/\/fw.atarde.com.br\/2018\/05\/750_orlando-senna-cinema-teatro-cineasta_201852813123295.jpg\" alt=\"Em teatro, Senna assina pelo menos 30 espet\u00e1culos, montados na Bahia, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro\" \/><figcaption>Em teatro, Senna assina pelo menos 30 espet\u00e1culos, montados na Bahia, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Como esses projetos, Sol da Bahia e Longe do Para\u00edso, o encontraram? O que, neles, o estimulou a essa empreitada dupla?<\/strong><br \/>\nSol da Bahia, produ\u00e7\u00e3o da HL Filmes, nasceu de uma antiga indigna\u00e7\u00e3o minha, alimentada pelo fato de que o Brasil teve a sua Guerra de Independ\u00eancia e, com exce\u00e7\u00e3o dos baianos, ningu\u00e9m sabe disso. Todos os pa\u00edses tiveram suas guerras de independ\u00eancia e se orgulham disso e os que n\u00e3o tiveram inventam. O Brasil teve e n\u00e3o d\u00e1 bola para isso, as escolas ensinam que nossa independ\u00eancia aconteceu porque um pr\u00edncipe portugu\u00eas deu um grito \u00e0s margens do riacho Ipiranga e resolveu tudo. H\u00e1 uma oculta\u00e7\u00e3o inexplic\u00e1vel sobre a verdade hist\u00f3rica, que \u00e9 uma guerra cruenta, terr\u00edvel e com contornos pr\u00f3prios, como o de um ex\u00e9rcito que se organizou enquanto lutava, o primeiro ex\u00e9rcito do mundo a alistar oficialmente mulheres em suas fileiras, um acontecimento como o b\u00edblico duelo entre David e Golias, a vit\u00f3ria do pequeno \u2013 um ex\u00e9rcito em forma\u00e7\u00e3o \u2013 contra o grande: as poderosas for\u00e7as armadas portuguesas. No filme, quem conta essa epopeia s\u00e3o as personagens que n\u00f3s conhecemos e os outros brasileiros n\u00e3o: Maria Quit\u00e9ria, Maria Felipa, Joana Ang\u00e9lica. Cada uma conta sua hist\u00f3ria pessoal, e a soma disso conforma a hist\u00f3ria coletiva, a hist\u00f3ria da rebeli\u00e3o. Na voz de Castro Alves, \u201co duelo da treva e do clar\u00e3o\u201d. Longe do Para\u00edso, produ\u00e7\u00e3o da Ara\u00e7\u00e1 Azul, \u00e9 sobre a viol\u00eancia desmedida na quest\u00e3o agr\u00e1ria brasileira, a hist\u00f3ria de um ex-campon\u00eas, expulso de suas terras por uma agropecu\u00e1ria, que se transforma em um pistoleiro matador de lideran\u00e7as camponesas. Os sindicatos do crime preferem contratar pistoleiros da mesma regi\u00e3o da v\u00edtima porque\u00a0 conhecem melhor do que ningu\u00e9m o territ\u00f3rio, os usos e costumes de onde v\u00e3o atuar. \u00c9 como lan\u00e7ar tragicamente irm\u00e3o contra irm\u00e3o, o que nos remete ao mito de Caim e Abel. Se voc\u00ea perguntar se \u00e9 uma met\u00e1fora do Brasil atual, eu direi que sim.<\/p>\n<p><strong>Em rela\u00e7\u00e3o ao filme A Idade da \u00c1gua, que j\u00e1 est\u00e1 pronto, o nome tra\u00e7aria um paralelo com A Idade da Terra, de Glauber Rocha? Por que esse t\u00edtulo? H\u00e1 algum paralelo com o Cinema Novo e Glauber?<\/strong><br \/>\nO filme de Glauber \u00e9 uma refer\u00eancia long\u00ednqua, \u00e9 mais uma homenagem do que um paralelo. O t\u00edtulo \u00e9 esse porque \u00e9 o melhor que encontrei para sintetizar o conte\u00fado do meu filme. A produ\u00e7\u00e3o foi realizada rapidamente gra\u00e7as \u00e0 chancela do canal CineBrasilTV, no \u00e2mbito da lei da TV por assinatura. Trata-se de uma an\u00e1lise da crise h\u00eddrica que aumenta dia a dia no mundo, com pa\u00edses com muita \u00e1gua e pa\u00edses com severa escassez dela. Os focos s\u00e3o a atualidade da Amaz\u00f4nia, cada vez mais cobi\u00e7ada pelas pot\u00eancias europeias, asi\u00e1ticas e norte-americanas, e a possibilidade de uma guerra mundial da \u00e1gua, que teria seu epicentro\u00a0 na Amaz\u00f4nia. Para muitos especialistas da quest\u00e3o da \u00e1gua e para os amaz\u00f4nicos, essa possibilidade se aproxima cada vez mais da realidade.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea foi muito amigo de Glauber, e juntos iniciaram uma revolu\u00e7\u00e3o cultural na Bahia ainda na adolesc\u00eancia. Como v\u00ea a juventude hoje e os manifestos que n\u00e3o passam das redes sociais, dos memes e das frases de efeito?<\/strong><br \/>\nAs redes sociais s\u00e3o a m\u00eddia mais importante da atualidade, com tend\u00eancia a serem cada vez mais decisivas no que se refere \u00e0 pol\u00edtica e ao comportamento. Tanto que muitos estudiosos da crise civilizat\u00f3ria e os futur\u00f3logos de plant\u00e3o preveem, al\u00e9m da guerra da \u00e1gua, a guerra cibern\u00e9tica. A tens\u00e3o que est\u00e1 ocorrendo entre Estados Unidos, R\u00fassia e China n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia de petr\u00f3leo, g\u00e1s natural, arsenal nuclear, controle de territ\u00f3rios ou ideologias. A causa \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o digital e de seu poder de persuas\u00e3o e aglutinamento no encaminhamento dessas quest\u00f5es. Nos encaminhamentos e nas decis\u00f5es referentes ao tormento em que se transformou a humanidade. Se hoje as redes sociais podem trazer milh\u00f5es de pessoas para as ruas em poucas horas, \u00e9 mais que prov\u00e1vel que no futuro pr\u00f3ximo possa arregimentar bilh\u00f5es. A tecnologia digital juntou a individualidade e a massifica\u00e7\u00e3o como elementos complementares, interdependentes, como esp\u00edrito e corpo. Estamos sim iniciando uma nova era planet\u00e1ria, para o mal e para o bem.\u00a0 A juventude est\u00e1 no centro desse rito de passagem, desse despertar de um novo tempo. Muitos jovens ainda n\u00e3o entenderam o tamanho da coisa e desperdi\u00e7am neur\u00f4nios com as tolices que voc\u00ea mencionou e tamb\u00e9m com atitudes medievais e fascistas. Mas muitos e muitos outros j\u00e1 entenderam pelos prismas da solidariedade, da bondade e da paz, e os primeiros resultados s\u00e3o bons: o empoderamento da mulher, a milit\u00e2ncia contra todos os preconceito e a favor da absoluta liberdade de pensamento, opini\u00e3o e comportamento. Nunca a juventude esteve t\u00e3o poderosa para decidir seu pr\u00f3prio futuro, e vamos ver no que vai dar.<\/p>\n<p><strong>Sabemos que h\u00e1 um projeto seu sobre a m\u00eddia. Como anda esse projeto?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma produ\u00e7\u00e3o da Iglu Filmes e est\u00e1 em fase de capta\u00e7\u00e3o de recursos. \u00c9 um projeto de Petrus Pires e meu, uma codire\u00e7\u00e3o. Escrevi o roteiro com a roteirista baiana Dayse Porto e o t\u00edtulo \u00e9 N\u00e3o Gosto de Gostar de Voc\u00ea. Um jornalista compra o suic\u00eddio de um funcion\u00e1rio p\u00fablico, a exclusividade da cobertura desse suic\u00eddio, que dever\u00e1 acontecer no Elevador Lacerda. Ele planeja jogar as imagens nas redes em tempo real e depois vender subprodutos de sua cobertura a\u00a0 plataformas e empresas de comunica\u00e7\u00e3o. Ou seja, ganhar muito dinheiro. \u00c9 inspirado no conto de Ariovaldo Matos A Constru\u00e7\u00e3o da Morte. E, de novo, se voc\u00ea perguntar se \u00e9 uma met\u00e1fora do Brasil de hoje, direi que sim.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea foi diretor da Escola de Cinema de Cuba, formando v\u00e1rios jovens, incluindo brasileiros, e secret\u00e1rio nacional do Audiovisual do MinC. Recentemente, tivemos a inaugura\u00e7\u00e3o de um curso superior de cinema em Salvador (e h\u00e1 um curso em Cachoeira). Cinema se aprende na escola? O que forma um grande cineasta?<\/strong><br \/>\nPode-se aprender muito de cinema em escolas, a depender da qualidade do ensino que nelas se pratica. Mas, al\u00e9m do saber fazer e do talento art\u00edstico, o principal fator que gera um grande cineasta \u00e9 a coragem. Guimar\u00e3es Rosa disse que \u201cviver \u00e9 muito perigoso\u201d. Pois fazer cinema que vale a pena \u00e9 perigos\u00edssimo. Eu que o diga.<\/p>\n<p><strong>O que ficou da experi\u00eancia cubana e de sua rela\u00e7\u00e3o com Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez?<\/strong><br \/>\nMorei muito tempo em Cuba, e a experi\u00eancia cubana foi e continuar\u00e1 sendo essencial em minha vida. Minha rela\u00e7\u00e3o com o povo cubano, com a efervescente cultura cubana, abriu meu esp\u00edrito para novos caminhos, novas formas, de intera\u00e7\u00e3o com o outro, por mais diferente de mim que ele seja. \u00c9 um pequeno grande pa\u00eds. S\u00f3 para se ter uma ideia disso, vale lembrar que a pequena e pobre Cuba nunca saiu das manchetes, da aten\u00e7\u00e3o do mundo, desde quando expulsou os espanh\u00f3is no in\u00edcio do s\u00e9culo 20. Minha rela\u00e7\u00e3o com Fidel teve a ver com minhas atividades internacionais em Cuba, como\u00a0coprodu\u00e7\u00e3o de filmes e o trabalho na Escola de Cinema. Ele sempre queria conversar sobre a import\u00e2ncia da Escola, um organismo internacional, para a imagem de Cuba perante o mundo. Com Garc\u00eda M\u00e1rquez foi diferente. Embora nossa rela\u00e7\u00e3o tenha come\u00e7ado em consequ\u00eancia de nosso trabalho na Escola, evoluiu para uma amizade pessoal e muito especial, familiar. Era como meu irm\u00e3o mais velho \u2013 na verdade, tive dois irm\u00e3os mais velhos, ele e o poeta e cineasta argentino Fernando Birri. Meu primeiro celular foi presente dele, meu primeiro computador tamb\u00e9m. Ele amava a vida com uma paix\u00e3o comovente e era muito engra\u00e7ado. O momento em que mais nos divertimos, em que mais rimos, foi quando escrevemos juntos o filme Oedipus Major, uma transposi\u00e7\u00e3o para a Am\u00e9rica Latina dos anos 80 da trag\u00e9dia \u00c9dipo Rei, de S\u00f3focles, tipo trag\u00e9dia tamb\u00e9m \u00e9 para rir.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" class=\"d-block img-responsive\" src=\"http:\/\/fw.atarde.com.br\/2018\/05\/750_orlando-senna-cineasta-cinema-abre-aspas_2018528131231908.jpg\" alt=\"Pelo longa Iracema, o cineasta recebeu o pr\u00eamio Georges Sadoul da Fran\u00e7a e o Grimme da Alemanha\" \/><figcaption>Pelo longa Iracema, o cineasta recebeu o pr\u00eamio Georges Sadoul da Fran\u00e7a e o Grimme da Alemanha. Na foto Orlando conversa com Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tem contato com a cena de cinema da Bahia?\u00a0<\/strong><br \/>\nVejo os filmes que os baianos est\u00e3o fazendo, mas n\u00e3o tenho muito contato com os cineastas, com exce\u00e7\u00e3o de alguns veteranos meus amigos, entre eles Pola Ribeiro, Jos\u00e9 Araripe, Fernando Belens, o indom\u00e1vel Edgard Navarro e com alguns jovens que passaram pelas minhas oficinas de dramaturgia em Len\u00e7\u00f3is, produzidas pela Solange Lima. Aproveito para mencionar o prazer que tenho ao ver a radicaliza\u00e7\u00e3o experimental de Henrique Dantas.<\/p>\n<p><strong>Como o ex-diretor-geral da TV Brasil v\u00ea\u00a0 hoje a TV brasileira? \u00c9 poss\u00edvel fazer TV de qualidade em nosso pa\u00eds?<\/strong><br \/>\nA TV comercial brasileira tem qualidade bastante para conquistar grandes audi\u00eancias nacional e internacional, como todo mundo sabe. Mas a TV comercial tem seu jeito comercial de ser, est\u00e1 deitada no leito da publicidade e do star system, \u00e9 a ponta brilhante e supercolorida do iceberg do capitalismo selvagem. Mas tem suas frestas de alta qualidade. Por exemplo, a melhor fic\u00e7\u00e3o brasileira mostrada no ano passado, incluindo as produ\u00e7\u00f5es da TV paga e da TV p\u00fablica foi, de longe, a s\u00e9rie Justi\u00e7a, da TV Globo, autoria da baiana Manuela Dias. Quanto \u00e0 TV p\u00fablica, que no in\u00edcio dos anos 2000 foi uma esperan\u00e7a de avan\u00e7o est\u00e9tico e conteud\u00edstico para muita gente, n\u00e3o evoluiu como devia ter evolu\u00eddo. Um grande projeto proposto no governo de Lula, a proposta de uma TV realmente da sociedade, com programa\u00e7\u00e3o definida pela sociedade e bem diferenciada da TV comercial e da TV estatal, ficou no papel. A TV p\u00fablica de hoje \u00e9 como a TV p\u00fablica do s\u00e9culo passado pintada com cores mais fortes, sem uma personalidade que a diferencie, como se estivesse a reboque da TV comercial. Uma grande pena, pois o povo brasileiro ficou sem possibilidade de uma alternativa, sem uma segunda op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Qual a receita para se manter ativo, cultural e intelectualmente, aos 78 anos?<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 tenho tudo isso? Sempre me esque\u00e7o da minha idade. \u00c0s vezes, quando me perguntam quantos anos levo nas costas, tenho de fazer contas e logaritmos. N\u00e3o sei se existe uma receita para a longevidade, acho que tem a ver com uma atitude positiva, otimista, tanto com rela\u00e7\u00e3o a voc\u00ea mesmo quanto aos outros. A busca constante, di\u00e1ria, da felicidade tamb\u00e9m deve ter alguma import\u00e2ncia nisso, principalmente quando felicidade \u00e9 sin\u00f4nimo de liberdade. Sartre, com quem j\u00e1 passeei pelas ruas de Salvador, teve seu momento mais brilhante quando disse que estamos condenados a ser livres. Outro aspecto desse mist\u00e9rio \u00e9 que concordo com quem disse, j\u00e1 n\u00e3o me lembro quem, que temos todas as idades. N\u00e3o tenho s\u00f3 78 anos, tenho tamb\u00e9m 2, 5, 10, 20, 30 ao mesmo tempo, em constante conviv\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Em sua opini\u00e3o, de que precisamos hoje? De que tipo de intelectuais e criadores precisamos hoje?<\/strong><br \/>\nO Brasil precisa, a humanidade precisa, de pensadores e artistas que saibam como buscar caminhos de supera\u00e7\u00e3o da grande crise civilizat\u00f3ria que estamos vivendo. Da grande crise moral, \u00e9tica, espiritual em que o ser humano mergulhou neste s\u00e9culo 21 em que a condena\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a da liberdade e sim a do preconceito, da ruptura, do crime, da autodestrui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o ser\u00e3o os ETs que v\u00e3o nos salvar da cat\u00e1strofe, muito menos a economia e a tecnologia. Mas creio que os poetas podem fazer isso, que a divindade que, apesar de tudo, ainda habita em n\u00f3s pode fazer isso, pode produzir um milagre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><div class='cow_johnson' style='padding:15px;margin-bottom:15px;float:left;margin-right:15px;width:640px;color:#666666!important;font-family:\"Segoe UI\";font-size:14px!important;line-height:16px!important;background:#FFFFFF;'><strong>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/strong><span style=\"color: #222222;\"><!-- relpost-thumb-wrapper --><div class=\"relpost-thumb-wrapper\"><!-- filter-class --><div class=\"relpost-thumb-container\"><style>.relpost-block-single-image, .relpost-post-image { margin-bottom: 10px; }<\/style><h2>Leia tamb\u00e9m:<\/h2><div style=\"clear: both\"><\/div><div style=\"clear: both\"><\/div><!-- relpost-block-container --><div class=\"relpost-block-container relpost-block-column-layout\" style=\"--relposth-columns: 3;--relposth-columns_t: 2; --relposth-columns_m: 2\"><a href=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/master-classes-nordestelab\/\"class=\"relpost-block-single\" ><div class=\"relpost-custom-block-single\"><div class=\"relpost-block-single-image rpt-lazyload\" aria-hidden=\"true\" role=\"img\" data-bg=\"https:\/\/faustojunior.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/nordestelab2017_master-classes-155x96.png\" style=\"background: transparent no-repeat scroll 0% 0%; 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