De volta à Bahia para dirigir dois filmes, o cineasta Orlando Senna, em entrevista à revista Muito, fala sobre cinema, mídias sociais e futuros projetos.

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Reportagem: Kátia Borges
Revista Muito
edição nº 512 de 27 de maio de 2018.
Fonte: http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1964163-orlando-senna-a-bahia-tem-e-sempre-teve-uma-forte-vocacao-para-o-cinema


Orlando Senna: “A Bahia tem e sempre teve
uma forte vocação para o cinema”

 

Cidadão do mundo, Orlando Senna, 78, nascido em Lençóis, volta à Bahia em junho para dirigir dois filmes: Sol da Bahia e Longe do Paraíso. Jornalista e cineasta, dirigiu longas como Iracema, Uma Transa Amazônica, Brascuba, Gitirana e A Idade da Água, que deve ser lançado ainda este ano. Autor de roteiros para TV e cinema, entre eles O Rei da Noite, Coronel Delmiro Gouveia, Abrigo Nuclear, Ópera do Malandro e Oedipus Major, seus trabalhos foram premiados nos festivais de Cannes, Taormina, Pésaro, Havana, Brasília e Rio de Janeiro. Pelo caráter inovador de Iracema recebeu o prêmio Georges Sadoul da França e o Grimme da Alemanha. É ainda autor dos livros Xana, Ares Nunca Antes Navegados, Máquinas Eróticas, Um Gosto de Eternidade e Os Lençóis e os Sonhos. Em teatro, assina pelo menos 30 espetáculos, montados na Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro. Um dos fundadores da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños (Escola de Cuba), foi secretário nacional do Audiovisual, diretor-geral da TV Brasil e presidente da TAL – Televisión América Latina, além de diretor de programação do CineBrasilTV e conselheiro da Spcine – Empresa de Cinema e Audiovisual de São Paulo. Atualmente integra o Conselho da Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano.

Orlando, como está sendo voltar à Bahia para gravar dois longas-metragens, depois de tantos anos no Rio de Janeiro?
E depois de tantos anos sem dirigir filmes. Foram decisões pessoais. Por volta do ano 2000 decidi me afastar da direção e dedicar-me a outras interfaces do cinema, como a formação de jovens cineastas e a organização de estruturas para produções alternativas. Em 2016 senti saudade das câmeras e planejei algumas realizações como diretor, que se tornaram possíveis devido à política audiovisual brasileira, principalmente à lei da TV por assinatura, que facilita o trabalho de cineastas independentes. Nos últimos meses realizei A Idade da Água, que está em fase de finalização técnica e tem estreia prevista para o segundo semestre. Em seguida, entre junho e agosto, vou realizar Sol da Bahia, em Salvador. Ambos são na linha do documentário-ensaio, um jeito de fazer cinema que se articula entre a verdade dos fatos e uma reflexão subjetiva, pessoal, sobre os fatos narrados. E logo depois a ficção Longe do Paraíso, também a ser feito na Bahia. Um ano bastante movimentado, mas vai dar tudo certo graças aos excelentes produtores que estão comigo nesse barco, que são Hermes Leal e Julie Tseng, em São Paulo, e Solange Lima, na Bahia. Respondendo mais diretamente à sua pergunta, voltar à Bahia para filmar me traz grande felicidade.

Como vê a Bahia hoje, já sem o forte estigma da baianidade turística?
A Bahia tem e sempre teve uma forte e histórica vocação para o cinema. Dois mil e dezessete foi um ano excelente para o audiovisual baiano, o melhor em muito tempo. Basta citar os trabalhos de Sérgio Machado;  O Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes; As Cores da Serpente, de Juca Badaró; A Cidade do Futuro, de Cláudio Marques e Marília Hughes; Café com Canela, de Ary Rosa e Glenda Nicácio; Elogio à Utopia, de Caio Araújo. Só para citar alguns que passam longe da baianidade turística e tratam de aspectos contemporâneos com abordagens e linguagens contemporâneas. Também a mencionar a crescente produção de telesséries documentais que não são feitas apenas em Salvador e sim, também, no interior. Na minha terra, Lençóis, há pequenas produtoras locais dedicando-se a isso, como a Montanhas Filmes, de Marcelo Abreu Góis, realizador da inspirada série Orquestra do Mundo. Pode-se dizer que a Bahia resgatou sua vocação, e o prognóstico é que produza cada vez mais e que reflita cada vez mais nossa diversidade cultural e nossa identidade mestiça.

Em teatro, Senna assina pelo menos 30 espetáculos, montados na Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro
Em teatro, Senna assina pelo menos 30 espetáculos, montados na Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro

Como esses projetos, Sol da Bahia e Longe do Paraíso, o encontraram? O que, neles, o estimulou a essa empreitada dupla?
Sol da Bahia, produção da HL Filmes, nasceu de uma antiga indignação minha, alimentada pelo fato de que o Brasil teve a sua Guerra de Independência e, com exceção dos baianos, ninguém sabe disso. Todos os países tiveram suas guerras de independência e se orgulham disso e os que não tiveram inventam. O Brasil teve e não dá bola para isso, as escolas ensinam que nossa independência aconteceu porque um príncipe português deu um grito às margens do riacho Ipiranga e resolveu tudo. Há uma ocultação inexplicável sobre a verdade histórica, que é uma guerra cruenta, terrível e com contornos próprios, como o de um exército que se organizou enquanto lutava, o primeiro exército do mundo a alistar oficialmente mulheres em suas fileiras, um acontecimento como o bíblico duelo entre David e Golias, a vitória do pequeno – um exército em formação – contra o grande: as poderosas forças armadas portuguesas. No filme, quem conta essa epopeia são as personagens que nós conhecemos e os outros brasileiros não: Maria Quitéria, Maria Felipa, Joana Angélica. Cada uma conta sua história pessoal, e a soma disso conforma a história coletiva, a história da rebelião. Na voz de Castro Alves, “o duelo da treva e do clarão”. Longe do Paraíso, produção da Araçá Azul, é sobre a violência desmedida na questão agrária brasileira, a história de um ex-camponês, expulso de suas terras por uma agropecuária, que se transforma em um pistoleiro matador de lideranças camponesas. Os sindicatos do crime preferem contratar pistoleiros da mesma região da vítima porque  conhecem melhor do que ninguém o território, os usos e costumes de onde vão atuar. É como lançar tragicamente irmão contra irmão, o que nos remete ao mito de Caim e Abel. Se você perguntar se é uma metáfora do Brasil atual, eu direi que sim.

Em relação ao filme A Idade da Água, que já está pronto, o nome traçaria um paralelo com A Idade da Terra, de Glauber Rocha? Por que esse título? Há algum paralelo com o Cinema Novo e Glauber?
O filme de Glauber é uma referência longínqua, é mais uma homenagem do que um paralelo. O título é esse porque é o melhor que encontrei para sintetizar o conteúdo do meu filme. A produção foi realizada rapidamente graças à chancela do canal CineBrasilTV, no âmbito da lei da TV por assinatura. Trata-se de uma análise da crise hídrica que aumenta dia a dia no mundo, com países com muita água e países com severa escassez dela. Os focos são a atualidade da Amazônia, cada vez mais cobiçada pelas potências europeias, asiáticas e norte-americanas, e a possibilidade de uma guerra mundial da água, que teria seu epicentro  na Amazônia. Para muitos especialistas da questão da água e para os amazônicos, essa possibilidade se aproxima cada vez mais da realidade.

Você foi muito amigo de Glauber, e juntos iniciaram uma revolução cultural na Bahia ainda na adolescência. Como vê a juventude hoje e os manifestos que não passam das redes sociais, dos memes e das frases de efeito?
As redes sociais são a mídia mais importante da atualidade, com tendência a serem cada vez mais decisivas no que se refere à política e ao comportamento. Tanto que muitos estudiosos da crise civilizatória e os futurólogos de plantão preveem, além da guerra da água, a guerra cibernética. A tensão que está ocorrendo entre Estados Unidos, Rússia e China não é consequência de petróleo, gás natural, arsenal nuclear, controle de territórios ou ideologias. A causa é a utilização da comunicação digital e de seu poder de persuasão e aglutinamento no encaminhamento dessas questões. Nos encaminhamentos e nas decisões referentes ao tormento em que se transformou a humanidade. Se hoje as redes sociais podem trazer milhões de pessoas para as ruas em poucas horas, é mais que provável que no futuro próximo possa arregimentar bilhões. A tecnologia digital juntou a individualidade e a massificação como elementos complementares, interdependentes, como espírito e corpo. Estamos sim iniciando uma nova era planetária, para o mal e para o bem.  A juventude está no centro desse rito de passagem, desse despertar de um novo tempo. Muitos jovens ainda não entenderam o tamanho da coisa e desperdiçam neurônios com as tolices que você mencionou e também com atitudes medievais e fascistas. Mas muitos e muitos outros já entenderam pelos prismas da solidariedade, da bondade e da paz, e os primeiros resultados são bons: o empoderamento da mulher, a militância contra todos os preconceito e a favor da absoluta liberdade de pensamento, opinião e comportamento. Nunca a juventude esteve tão poderosa para decidir seu próprio futuro, e vamos ver no que vai dar.

Sabemos que há um projeto seu sobre a mídia. Como anda esse projeto?
É uma produção da Iglu Filmes e está em fase de captação de recursos. É um projeto de Petrus Pires e meu, uma codireção. Escrevi o roteiro com a roteirista baiana Dayse Porto e o título é Não Gosto de Gostar de Você. Um jornalista compra o suicídio de um funcionário público, a exclusividade da cobertura desse suicídio, que deverá acontecer no Elevador Lacerda. Ele planeja jogar as imagens nas redes em tempo real e depois vender subprodutos de sua cobertura a  plataformas e empresas de comunicação. Ou seja, ganhar muito dinheiro. É inspirado no conto de Ariovaldo Matos A Construção da Morte. E, de novo, se você perguntar se é uma metáfora do Brasil de hoje, direi que sim.

Você foi diretor da Escola de Cinema de Cuba, formando vários jovens, incluindo brasileiros, e secretário nacional do Audiovisual do MinC. Recentemente, tivemos a inauguração de um curso superior de cinema em Salvador (e há um curso em Cachoeira). Cinema se aprende na escola? O que forma um grande cineasta?
Pode-se aprender muito de cinema em escolas, a depender da qualidade do ensino que nelas se pratica. Mas, além do saber fazer e do talento artístico, o principal fator que gera um grande cineasta é a coragem. Guimarães Rosa disse que “viver é muito perigoso”. Pois fazer cinema que vale a pena é perigosíssimo. Eu que o diga.

O que ficou da experiência cubana e de sua relação com Gabriel García Márquez?
Morei muito tempo em Cuba, e a experiência cubana foi e continuará sendo essencial em minha vida. Minha relação com o povo cubano, com a efervescente cultura cubana, abriu meu espírito para novos caminhos, novas formas, de interação com o outro, por mais diferente de mim que ele seja. É um pequeno grande país. Só para se ter uma ideia disso, vale lembrar que a pequena e pobre Cuba nunca saiu das manchetes, da atenção do mundo, desde quando expulsou os espanhóis no início do século 20. Minha relação com Fidel teve a ver com minhas atividades internacionais em Cuba, como coprodução de filmes e o trabalho na Escola de Cinema. Ele sempre queria conversar sobre a importância da Escola, um organismo internacional, para a imagem de Cuba perante o mundo. Com García Márquez foi diferente. Embora nossa relação tenha começado em consequência de nosso trabalho na Escola, evoluiu para uma amizade pessoal e muito especial, familiar. Era como meu irmão mais velho – na verdade, tive dois irmãos mais velhos, ele e o poeta e cineasta argentino Fernando Birri. Meu primeiro celular foi presente dele, meu primeiro computador também. Ele amava a vida com uma paixão comovente e era muito engraçado. O momento em que mais nos divertimos, em que mais rimos, foi quando escrevemos juntos o filme Oedipus Major, uma transposição para a América Latina dos anos 80 da tragédia Édipo Rei, de Sófocles, tipo tragédia também é para rir.

Pelo longa Iracema, o cineasta recebeu o prêmio Georges Sadoul da França e o Grimme da Alemanha
Pelo longa Iracema, o cineasta recebeu o prêmio Georges Sadoul da França e o Grimme da Alemanha. Na foto Orlando conversa com Gabriel García Márquez.

 

Você tem contato com a cena de cinema da Bahia? 
Vejo os filmes que os baianos estão fazendo, mas não tenho muito contato com os cineastas, com exceção de alguns veteranos meus amigos, entre eles Pola Ribeiro, José Araripe, Fernando Belens, o indomável Edgard Navarro e com alguns jovens que passaram pelas minhas oficinas de dramaturgia em Lençóis, produzidas pela Solange Lima. Aproveito para mencionar o prazer que tenho ao ver a radicalização experimental de Henrique Dantas.

Como o ex-diretor-geral da TV Brasil vê  hoje a TV brasileira? É possível fazer TV de qualidade em nosso país?
A TV comercial brasileira tem qualidade bastante para conquistar grandes audiências nacional e internacional, como todo mundo sabe. Mas a TV comercial tem seu jeito comercial de ser, está deitada no leito da publicidade e do star system, é a ponta brilhante e supercolorida do iceberg do capitalismo selvagem. Mas tem suas frestas de alta qualidade. Por exemplo, a melhor ficção brasileira mostrada no ano passado, incluindo as produções da TV paga e da TV pública foi, de longe, a série Justiça, da TV Globo, autoria da baiana Manuela Dias. Quanto à TV pública, que no início dos anos 2000 foi uma esperança de avanço estético e conteudístico para muita gente, não evoluiu como devia ter evoluído. Um grande projeto proposto no governo de Lula, a proposta de uma TV realmente da sociedade, com programação definida pela sociedade e bem diferenciada da TV comercial e da TV estatal, ficou no papel. A TV pública de hoje é como a TV pública do século passado pintada com cores mais fortes, sem uma personalidade que a diferencie, como se estivesse a reboque da TV comercial. Uma grande pena, pois o povo brasileiro ficou sem possibilidade de uma alternativa, sem uma segunda opção.

Qual a receita para se manter ativo, cultural e intelectualmente, aos 78 anos?
Já tenho tudo isso? Sempre me esqueço da minha idade. Às vezes, quando me perguntam quantos anos levo nas costas, tenho de fazer contas e logaritmos. Não sei se existe uma receita para a longevidade, acho que tem a ver com uma atitude positiva, otimista, tanto com relação a você mesmo quanto aos outros. A busca constante, diária, da felicidade também deve ter alguma importância nisso, principalmente quando felicidade é sinônimo de liberdade. Sartre, com quem já passeei pelas ruas de Salvador, teve seu momento mais brilhante quando disse que estamos condenados a ser livres. Outro aspecto desse mistério é que concordo com quem disse, já não me lembro quem, que temos todas as idades. Não tenho só 78 anos, tenho também 2, 5, 10, 20, 30 ao mesmo tempo, em constante convivência.

Em sua opinião, de que precisamos hoje? De que tipo de intelectuais e criadores precisamos hoje?
O Brasil precisa, a humanidade precisa, de pensadores e artistas que saibam como buscar caminhos de superação da grande crise civilizatória que estamos vivendo. Da grande crise moral, ética, espiritual em que o ser humano mergulhou neste século 21 em que a condenação não é a da liberdade e sim a do preconceito, da ruptura, do crime, da autodestruição. Não serão os ETs que vão nos salvar da catástrofe, muito menos a economia e a tecnologia. Mas creio que os poetas podem fazer isso, que a divindade que, apesar de tudo, ainda habita em nós pode fazer isso, pode produzir um milagre.

 

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