por Fausto Junior

Em 2016 publiquei um artigo com uma lista de cinco filmes que traziam alguma relação com o momento político do país de então. Agora, dois anos depois do desenrolar desta crise, volto com outros cinco filmes que podemos, de algum modo, relacionar com o nosso conturbado, temeroso e cada vez mais raivoso cenário político.

Em 2016 listei:
Danton – O Processo da Revolução (Andrzej Wajda, 1983)
O Homem de Mármore (Andrzej Wajda, 1977)
Queimada! (Gillo Pontecorvo, 1969)
Todos os Homens do Presidente (Alan J. Pakula, 1976)
Rede de Intrigas (Sidney Lumet, 1976)

Dei uma pedalada fiscal e botei na lista um sexto filme:
As Mãos sobre a Cidade (Francesco Rosi, 1963)

Quem quiser ver imagens, sinopse, trailer e comentários sobre cada um deles e o que teriam a ver com nossa crise, o link é esse aqui:
faustojunior.com/blog/5-filmes-politicos

Este cinco filmes não têm relação direta com a nossa atual crise política, mas é possível encontrar um elemento ou outro capaz de dialogar com o nosso cenário de 2018.

Lembrando que esta é a minha lista de filmes neste momento e são títulos que me vêm à lembrança de modo imediato, sem maiores pesquisas. Evitei colocar filmes brasileiros para que a comparação fosse feita em cima de situações completamente distintas. Apenas cinco filmes. Muitas outras listas podem ser feitas com diferentes recortes. Quem quiser fazer sua lista também ou indicar mais um ou outro filme, sinta-se à vontade. Vamos à lista 2018:
(não é por acaso que quase todos os filmes da lista falam sobre o regime nazista)


O Ovo da Serpente
Das Schlangenei | EUA/Alemanha Ocidental | 1977 | 120 min
Direção: Ingmar Bergman

 

Berlim, novembro de 1923, em plena República de Weimar. Abel Rosenberg é um trapezista judeu desempregado que descobriu recentemente que seu irmão, Max, se suicidou. Logo ele encontra Manuela, sua cunhada. Juntos eles sobrevivem com dificuldade à violenta recessão econômica pela qual o país passa. Sem compreender as transformações políticas em andamento, eles aceitam trabalhar em uma clínica clandestina que realiza experiências em seres humanos.

 

O famoso filme de Bergman se passa 10 anos antes de Hitler chegar ao poder. A Alemanha vivia um período caótico: violenta recessão econômica, altíssimo desemprego e uma hiperinflação monumental; havia impunidade e tentativas de golpe de Estado; o país sentia-se humilhado após a derrota na I Guerra Mundial e ainda perdia territórios para a França; havia um clima de xenofobia, fanatismo político e ódio aos judeus, que eram apontados como culpados pela terrível situação que o país atravessava. Como em vários outros momentos da história, este é o cenário perfeito para o surgimento de “salvadores da Pátria”, que são corajosos, determinados e prometem que vão consertar “toda essa bagunça que está aí.”

Como diz o tenebroso personagem Hans Vergerus na parte final do filme:
“[…] qualquer um que fizer o mínimo esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como um ovo de serpente. Através das membranas finas pode-se distinguir o réptil já perfeitamente formado.”

Guardadas as devidas proporções, estamos ou não estamos passando por algo semelhante no Brasil de 2018? Já temos até o nosso “salvador”, o “messias”, na verdade um réptil que está prestes a romper a casca do ovo.


O Monstro na Primeira Página
Sbatti il mostro in prima pagina | Itália | 1972 | 82 min
Direção: Marco Bellocchio

 

Um jornal italiano de direita, comandado pelo editor-chefe Bizanti (Gian Maria Volonté), busca manipular a opinião pública em torno de um caso de assassinato. Uma menina rica foi morta na periferia de Milão e um jovem proletário de esquerda é acusado. As manchetes da primeira página não buscam a solução do crime, mas a vitória num complexo jogo político que mira as eleições do final do ano. 

 

Não poderia deixar de fora uma referência à manipulação midiática representada neste sensacional filme italiano. Este não é um tema novo e muito menos uma exclusividade brasileira (recomendo ver a matéria sobre o filme O Mercado de Notícias, de Jorge Furtado).

No filme, Gian Maria Volonté encarna o editor-chefe de um grande jornal de Milão. Um autêntico cão de guarda dos interesses dos patrões (e de seus respectivos anunciantes). De um modo que chega a ser didático acompanhamos o personagem em sua tarefa de criar uma história que possa influenciar a população em pleno período pré-eleitoral. O objetivo da investigação não é achar o verdadeiro culpado, mas alguém que, convenientemente, possa servir de culpado. “Por acaso” este papel recai sobre um militante que atua na oposição ao setor que o jornal representa. Um caso policial utilizado politicamente, apresentado durante semanas na primeira página. Como diz um dos personagens: “propaganda indireta, muito mais eficiente”.

Numa das cenas mais emblemáticas do filme o editor-chefe diz ao jovem jornalista:
“Você vê o jornalista como um observador imparcial. E eu lhe digo que esses observadores imparciais me dão pena. Temos que ser protagonistas, não observadores. Estamos em guerra! Nós também lutamos na guerra de classes.”

O filme completo está disponível no Youtube (com legendas em português).


A Onda
Die Welle | Alemanha | 2008 | 107 min
Direção: Dennis Gansel

 

Rainer Wegner é professor de ensino médio numa pequena cidade alemã. Ele é designado para ministrar um curso sobre autocracia. Diante da incredulidade de que uma nova ditadura possa surgir outra vez na Alemanha, ele propõe um experimento para que os alunos percebam na prática os mecanismos de um sistema político ditatorial.

Wegner se auto-proclama líder daquele grupo, exige disciplina, pede que todos se trajem uniformemente. Os alunos se entusiasmam, escolhem o nome do grupo, desenvolvem uma marca, criam gestos de saudação, sentem-se mais fortes, excluem os que não pensam como eles e buscam novos adeptos. O professor então percebe que perdeu o controle sobre o movimento. Baseado em uma história real ocorrida na Califórnia em 1967.

 

Brasil 2018. Planeta Terra 2018. Diante da ascensão de grupos de extrema-direita em várias parte do mundo, surgem aquelas velhas perguntas:
“Como o povo alemão permitiu a ascensão do Nazismo na época?” “Como aceitaram as prisões e extermínio em massa de milhares de pessoas?” Estamos tendo uma ideia, na prática, de como isso foi possível.

No filme A Onda o grande detalhe é que o professor fica intrigado quando os alunos afirmam que algo como o Nazismo não teria como se repetir na Alemanha. Afinal, o país não estava mais sob o cenário propício para a proliferação de um regime autocrático.

Ao dar início ao experimento e assumir a liderança do movimento, o professor trabalha para que o grupo tenha total coesão, absoluta disciplina e obediência, eliminando qualquer traço de diversidade, seja no modo de pensar ou se apresentar. Além disso, aponta os alunos do curso de Anarquia como rivais, ou seja, o inimigo comum a ser batido.

Só como comparação, é exatamente o oposto do professor de filosofia da série Merlí, que incentiva seus alunos a ter sempre um senso crítico diante de tudo e conviver com as diferenças.

Considere-se também que o exemplo do filme  vale tanto para governos de direita quanto de esquerda (ainda que hoje estes conceitos estejam tão misturados). Ditadura é ditadura seja pra que lado aponte.

O filme completo (e dublado) está no Youtube (pelo menos até a data da publicação deste artigo):


Sessão Especial de Justiça
Section spéciale | França-Itália-Alemanha | 1975 | 110 min
Direção: Costa Gravas

 

Baseado em fatos reais, relata um atentado ocorrido em Paris na Segunda Guerra, sob ocupação alemã, quando a resistência assassina um militar alemão. As forças de ocupação exigem que a Justiça francesa repare o crime executando seis pessoas que sejam suspeitas de ter envolvimento com partidos políticos de esquerda ou que sejam judeus. Se não cumprida a ordem, o governo nazista executaria cem franceses, incluindo magistrados e advogados.

A partir daí cria-se uma farsa jurídica para dar uma aparência de normalidade a verdadeiras aberrações, como fazer novo julgamento e condenar à morte pessoas que já haviam sido anteriormente condenadas a penas bem mais brandas, de no máximo cinco anos, por delitos como distribuição de panfletos ou roubo de bicicleta.

Não poderia deixar de colocar na lista um filme de Costa-Gravas. Este então é bem representativo do momento atual no Brasil, onde temos a nossa República de Curitiba e as “convicções” que valem mais do que provas.

Como já foi mencionado, a trama é baseada em fatos reais ocorridos durante o período da França ocupada pelos alemães. A parte da França supostamente livre era “governada” a partir da cidade de Vichy. Para saber mais sobre o tema busque estas palavras-chave: “República de Vichy” ou “França de Vichy”.
O texto nesse link dá uma boa visão geral sobre o assunto:
França de Vichy – o governo da desonra de uma nação.

É muito interessante também a análise do filme sob o ponto de vista de uma advogado, como este: O que o filme Section Spéciale, de Costa-Gravas, pode nos ensinar sobre o Direito, por André Mincherian Mostafa Cordeiro.

Em resumo, o filme apresenta a encenação de uma tribunal onde os réus já estavam condenados por antecipação. A inocência ou culpa dos acusados não vinham ao caso.
O destino deles já estava decidido, mesmo que para isso fosse necessário desvirtuar, reinterpretar ou refazer a lei vigente. Enfim, a Justiça como instrumento de poder de um grupo social sobre outros.


Ele Está de Volta
Er ist wieder da | Alemanha | 2015 | 116 min
Direção: David Wnendt

 

Adolf Hitler desperta no mesmo local em que ficava o seu bunker há 70 anos, mas vira um fenômeno da mídia ao ser confundido com um comediante.

Segue um trecho do texto do crítico Yuri Correa (escrito em 2016). Veja o texto completo em papodecinema.com.br/filmes/ele-esta-de-volta

“O que aconteceria se Adolf Hitler existisse nos dias de hoje? Que tipo de impacto um dos maiores vilões da História causaria na sociedade moderna? E quanto a nós, o povo do Século XXI, agiríamos assim de maneira tão diferente quanto os alemães dos anos 1930? Aparentemente o escritor Timur Vermes se interessou muito em responder essas perguntas, criando uma pequena fábula em que Hitler é magicamente transportado do final da Segunda Guerra para a nossa atualidade. Entretanto, Vermes foi precipitado, pois se tivesse esperado mais um tempo veria sua ficção se transfigurar em realidade, com Donald Trump nos Estados Unidos e com Jair Bolsonaro no Brasil, que tantas décadas depois ainda enfileiram cegos e fiéis eleitores (em quantidade suficiente para colocar ambos perigosamente perto da candidatura à presidência de seus respectivos países) que apoiam os mesmos valores conservadores dos nazistas – apenas com uma embalagem mais neoliberal. Por isso que Ele Está de Volta, o filme, apesar de encontrar problemas em se identificar como ficção ou mockumentary (documentário falso), acaba soando tão preocupantemente revelador.” 

O Hitler ressuscitado, ainda que confundido com um comediante, ganha espaço na TV e planeja reinstaurar o III Reich utilizando justamente o incrível poder da televisão, seguindo, é claro, as teses do seu livro Mein Kampf. Caminho que é facilitado, como ele mesmo diz, por estar diante de “uma sociedade totalmente midiotizada e idiotizada.”

No filme a população alemã embarca novamente no envolvente discurso hitlerista (e como estamos vendo, muitos por aqui também). É bem provável que quem apóia a extrema-direita hoje teria apoiado também nos anos 30.


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Veja o artigo publicado em 2016: 5 filmes politicos. 

 

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