Por Fausto Junior
(publicação conjunta com o Caderno de Cinema)

 

Recentemente recebi do colega Caó Cruz Alves uma edição do livro Maldita Animação Brasileira, organizado por Sávio Leite a partir de uma série de textos e entrevistas com animadores de diversas regiões do Brasil. Caó esteve em Sampa por ocasião de um dos lançamentos do livro, durante o Festival de Curtas-Metragens de São Paulo. A cada evento ligado a cinema em alguma região do país lá está Sávio fazendo novo lançamento e divulgando o trabalho.

O livro (da editora Favela É Isso Aí) está dividido em três partes. A primeira com oito textos de animadores de todas as regiões (só faltou a região Norte). A segunda apresenta entrevistas com animadores de variadas idades, estilos e origens. (Outra observação é que, entre textos e entrevistas, a obra contou com a participação de apenas duas mulheres. Seria também um reflexo de haver na animação uma predominância masculina?)  A terceira parte traz imagens de diversos trabalhos “malditos” (honrosamente entre eles está Concerto No. 1 para Celular e Orquestra).

A obra organizada por Sávio apresenta um panorama da produção autoral no Brasil e registra um momento de transição, em que grandes transformações positivas estão acontecendo na animação brasileira (e no setor audiovisual em geral), relatado por personagens que estão construindo esta história.

A seguir estão breves comentários sobre cada um dos textos e entrevistas. Para saber o porquê de cada título só lendo o livro.


 

PARTE I – PENSANDO O CINEMA DE ANIMAÇÃO BRASILEIRO

 

Maldito no Curral!
Utilizando um personagem funéreo, Quiá Rodrigues homenageia o conterrâneo Sávio Leite contando sua saga em Curral Grande (como Sávio se refere carinhosamente à sua querida Belo Horizonte): o período em Virginópolis, a fase punk, os fanzines, o início da parceria com Clécius Rodrigues, o Festival Múmia…   a criatura fantasmagórica revela (parte de quase) tudo sobre Sávio Leite, o “cara que faz animação sem animar.”

Ao final do livro outro texto de Quiá comenta a trajetória e cada produção realizada por Sávio.

 

Bambi no ponto de ônibus
Recheado de citações, referências e seguindo método acadêmico de escrever, outro mineiro, Leo Ribeiro, faz uma reflexão sobre animação underground no Brasil, inicialmente contrapondo trabalhos autorais e comerciais. Em seguida ele se mune de argumentos para mostrar que as duas vertentes na verdade se interpõem, se complementam:

Separar em universos estanques a indústria e o autoral é impraticável.” “… a animação comercial adota com muita frequência descobertas e estudos de linguagem iniciados na animação experimental. Da mesma forma, o animador independente também utiliza técnicas e modelos originados na indústria, conferindo a estes um caráter autoral e crítico. A troca e a permeabilidade entre os campos experimental e comercial revigoram o campo da animação”.

 

“Filmes como Bambi Meets Godzilla são como pedras atiradas ao vidro: podem causar estranheza ou repulsa ao público acostumado ao modelo comercial de animação, mas ao mesmo tempo chamam a atenção do mesmo público para a banalidade desse modelo, possibilitando a maturação de novas ideias, renovando a linguagem da animação”.
Leo Ribeiro

 

O átomo brincalhão
Em texto publicado originalmente na revista Filme Cultura, o jornalista Roberto Maia fala sobre seu pai, o radialista e animador Roberto Miller, discípulo de Norman McLaren e premiado em diversos festivais internacionais com seus curtas experimentais e abstratos. Como diretor de TV participou de diversos programas, inclusive o Lanterna Mágica, na TV Cultura, programa especializado em animação e videoarte da TV brasileira e que marcou época.

 

Trecho de O Átomo Brincalhão (1961). Veja versão completa.

 

Animando no caminho
Sempre ávido por experimentações, o inquieto animador cearense Diego Akel tece considerações e reflexões entusiasmadas sobre a espontaneidade na criação artística através dos dispositivos móveis, como tablets e smartphones. Diversas funções (câmera, edição, publicação) em um só equipamento de fácil portabilidade; interfaces simplificadas que tornam o uso dos aplicativos bastante intuitivo, sem necessidade de longos aprendizados para começar a utilizá-los. Deste modo o criador fica livre para focar na realização da obra, sem tantos percalços em questões técnicas.

Mais organicidade, menos controle. Akel completa:

“…produções grandes sempre existirão (e é importante sua existência), mas acredito totalmente em se valorizar outro escopo de produção, que visa incorporar elementos mais cotidianos, imediatos e espontâneos ao meio cinematográfico.”

 

Bahianimada
O cartunista e animador Caó Cruz Alves apresenta um painel com referências a diversos momentos da produção de animações na Bahia. Ele faz breves relatos sobre eventos, festivais, oficinas, editais e trabalhos isolados de autores independentes. Desde o cineclube formado pelo prof. Walter da Silveira nos anos 50, passando pela Jornada de Cinema da Bahia, as oficinas dentro de eventos como o Festival 5 Minutos e o Animaí!, até os editais pelo FSA resultantes da revolução provocada pela Lei 12.485/2011 (Lei da TV Paga). De um modo geral, o ponto em comum a boa parte destes itens é a forte dependência do Estado para o fomento da animação em suas várias etapas (produção, exibição, incentivo à formação…).

Apesar das conquistas e novas oportunidades surgidas nos últimos anos, Caó aponta vários desafios:

“…falta de continuidade no apoio ao desenvolvimento de capacitação e qualificação de novos animadores, assim como nota-se a ausência de um mecanismo de distribuição dos trabalhos quando são desvinculados do canal de televisão estatal.”

jornada+animai+5minutos

 

Animação e super-8 no Recife 70
A produtora Christiana Quaresma e o animador Marcos Buccini, a partir de pesquisas que desenvolvem para Programa de Pós-graduação na UFPE, relatam a origem das primeiras animações em Pernambuco, fortemente vinculadas ao boom superoitista nos anos 70. “… um cinema que incorporou o espontâneo, o acaso, o precário, além de aproximar outros campos de produção imagética, como as artes plásticas.

No texto eles analisam três obras pernambucanas de 1972 e 1975, cada uma delas realizadas com técnicas variadas, tendo em comum a precariedade de produção, com linguagens bem experimentais e forte teor crítico: Vendo/Ouvindo (1972, 5 min), de Lula Gonzaga e Fernando Spencer; Puf no cosmo das cores (1972, 3min), de Osman Godoy; As corocas se divertem (1975, 2’30 min), de Fernando Spencer.

vendo-ouvindo+puf+corocas

Veja textos completos com participações de Quaresma e Buccini sobre a pesquisa:
O cinema de animação em Pernambuco: interpretação e mapeamento histórico (1968-2010)
Cinema menor e animação superoitista em Pernambuco
O nascimento do cinema de animação em Pernambuco

 

MMarte ataca!
Representando a região Centro-Oeste, o empreendedor animador goiano Márcio Junior apresenta-nos sua incrível história, digna de novela, com amores arrebatadores, coincidências e reviravoltas. Ele nos conta sobre seu trabalho com HQs, como iniciou na animação, a produção de curtas e criação da escola de animação em Goiânia. Um desencadear de eventos que contou sempre com a presença do Poder Público, seja através de editais ou apoios a viagens técnicas (sempre a dependência estatal). Em um trecho Márcio fala sobre um aspecto que atinge a produção de animação em todo o país:

Ainda que a animação goiana já exibisse experiências mais consistentes nos pioneiros  trabalhos de Dustan Oeven, Paulo Caetano e Mandra Filmes, a carência de mão de obra qualificada era um dado presente e limitador do desenvolvimento local. A complexidade inerente ao trabalho do animador e a minúscula oferta de cursos e escolas de formação constroem, ainda hoje, uma realidade que não se restringe ao Estado de Goiás”.

Em destaque ele comenta sobre dois curtas produzidos pela MMarte Produções: O Ogro (2011), dirigido e produzido por Márcio Junior e Márcia Deretti, e Faroeste: Um Autêntico Western (2013), com direção de Wesley Rodrigues.

 

2011, 8 min., Brasil, p/b. Animação.
Uma floresta sombria, um castelo em ruínas, dois cavaleiros medievais e uma diabólica criatura de tempos imemoriais. Baseado na HQ de Antônio Rodrigues e Julio Shimamoto, legenda dos quadrinhos brasileiros.  www.oogro.com.br

 

Crianças malditas…
Fechando a primeira parte do livro, a produtora e pesquisadora Patrícia Alves Dias (PE) questiona o conceito de infância ao longo da história (infans, aquele que não fala, que não tem a palavra, aquele que ainda não é). Em seguida ela enumera e comenta sobre diversas iniciativas internacionais que, ao longo de décadas, têm visado a excelência na produção de audiovisuais para crianças e jovens. Conferências, organismos, instituições, festivais que promovem a diversidade artística, educativa, lúdica e informativa.

Entre as ações estão o Plan de Niños ou PLAN-DENI, o Divercine, um dos mais importantes festivais internacionais de obras para a infância, o Grupo de Trabalho da ASIFA (Associação Internacional do Filme de Animação), voltado para produções onde as crianças contam suas próprias histórias.

 

O MENDIGO SORTUDO, fala do cotidiano urbano da cidade do Rio de Janeiro e do imaginário das crianças sobre a Folia de Reis dos Penitentes do Santa Marta. Um olhar da Infância na cidade do Rio de Janeiro: “Após um trágico episódio marcado pela violência urbana, Mariana e o mendigo Lula se apaixonam. O MENDIGO SORTUDO é mais um episódio da série CARTA ANIMADA PELA PAZ, projeto de vivência em cinema de animação de crianças do mundo urbano. O Projeto CARTA ANIMADA PELA PAZ (8 x 3 min., color, HD, animação, sonoro, 2001 – 2008) é vencedor do Prêmio MELHORES PRÁTICAS NA AMERICA LATINA, pela UNESCO 2005.

 

No Brasil diversas iniciativas colocam as crianças como protagonistas na produção de obras de animação, como o Espelho Lunar (BA/PE), o Festival Internacional de Cinema de Animação (PE), o Festival Cinema no Rio São Francisco. A maior referência no país  é o trabalho de Wilson Lazaretti e Mauricio Squarisi no Núcleo de Cinema de Animação de Campinas, que já produziu mais de 300 filmes de animação, grande parte como resultado de oficinas direcionadas para crianças e jovens nos mais diversos pontos do Brasil e também no exterior. Wilson e Mauricio estão entre os entrevistados na segunda parte do livro.

 

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