Por Fausto Junior
Artigo publicado em conjunto com o Caderno de Cinema.

Continuação da resenha sobre o livro Maldita Animação Brasileira (editora Favela É Isso Aí), organizado por Sávio Leite a partir de uma série de textos e entrevistas com animadores de diversas regiões do Brasil. Veja a primeira parte.

O livro (da editora Favela É Isso Aí) está dividido em três partes. A primeira com oito textos de animadores de todas as regiões (só faltou a região Norte). A segunda apresenta entrevistas com animadores de variadas idades, estilos e origens. A terceira parte traz imagens de diversos trabalhos “malditos” (honrosamente entre eles está Concerto No. 1 para Celular e Orquestra).


PARTE 2 – ENTREVISTAS

Allan Sieber
O irreverente animador e quadrinista gaúcho fala sobre seus trabalhos e parcerias, seu processo criativo (sempre no jeito Allan Sieber de se expressar). Desde os curtas como Os Idiotas Mesmo e Deus é Pai, até webseries para o GShow, seus trabalhos têm sempre muitos diálogos e poucos movimentos.

eu não sou tecnicamente um animador, porra, eu animei Deus é pai, Os idiotas mesmo, mas aquilo não é animação assim tecnicamente, aquilo é decupagem e corte, é tudo corte, ninguém se mexe, ninguém levanta (risos), ninguém anda, ninguém levanta um copo, só peidam e falam (risos).

 

Arnaldo Galvão
Com uma vasta experiência, o caminho de Arnaldo Galvão se confunde com a própria história recente da animação no Brasil (em 2014 ele finalizou o longa documentário O Cinema Animado, sobre a História do Cinema de Animação no Brasil). Na entrevista ele fala sobre seu período como cartunista, o início do festival Anima Mundi, seus trabalhos com Maurício de Sousa, o processo de produção do inesquecível programa Rá-Tim-Bum, além dos trabalhos em publicidade (foram mais de 200), e ainda sobre a fundação da ABCA.

Em 1998 (acho), o Anima Mundi trouxe uma mostra apresentada pela Associação Francesa de Animação… que comemorava ter alcançado a marca de 500 horas de produção local de animação. Eles descreveram que antes da AFCA o panorama era muito parecido com o que vivíamos no Brasil: os cinemas e a TV tomados exclusivamente por filmes e série de animação americanos, e nada de incentivo.”

É muito interessante ler esse relato de quem não apenas vivenciou de perto, mas também participou ativamente das transformações no audiovisual (e particularmente na animação) que se produz no Brasil.

Arnaldo faz comentários sobre detalhes de alguns curtas que realizou, como Uma Saída Política (1990), Disque N para Nascer (1992) e o clássico, o aclamado e campeão de visualizações no Porta Curtas, Almas em Chamas (2000).

 

César Cabral
Diretor e animador especialista na técnica stop motion, César Cabral (SP) fala sobre o processo de criação e produção do premiadíssimo curta Dossiê Rê Bordosa, além de outros trabalhos, como o Tempestade e o projeto do longa protagonizado por outro personagem de Angeli, o Bob Cuspe.

Entre os trabalhos para publicidade, destaque para o Melissa Power of Love, em que uma imensa parede foi coberta de Post-it.

 

Clécius Rodrigues
Nascido em Brasília de Minas e morando na também mineira Montes Claros, Clécius Rodrigues fala sobre os trabalhos feitos em parceria com o entrevistador Sávio Leite e sobre como é ser um solitário animador underground.  Uma condição muito comum à absoluta maioria dos animadores no Brasil. Logo de início o fato da aprendizagem autodidata.  Outros dois pontos comentados por Clécius aparecem em outros textos e entrevistas do livro:

  • A surpresa e sensação de libertação ao assistir pela primeira vez alguma animação com temática não-infantil. Enfim, a descoberta de que animação não é, necessariamente, uma área voltada só para crianças.
  • A precariedade e falta de recursos ter suas vantagens, como o fato de se poder fazer o que quiser, do jeito que quiser, sem precisar prestar contas a ninguém e ainda assim ser parabenizado por isso.

Sobre as habilidades que se espera de um bom animador ele diz:

…tem que ter um timing. Saber o que vai virar aquela cena…   Porque animação se faz assim… Você desenha segundo. Você trabalha com segundos! Você não precisa necessariamente saber desenhar! Você pode animar uma laranja, um pedaço de papel.

 

Eduardo Perdido
Em entrevista realizada via email, o animador paulista Eduardo Perdido fala sobre os primeiros trabalhos utilizando o programa Flash e o produtivo período em que aproveitava as greves na UFSCAR – Univ. Federal de São Carlos para produzir a série Roque & Alfredo.

Bacharel em Imagem e Som, Eduardo faz parte de uma geração que começou a animar diretamente com ferramentas digitais e a publicar os trabalhos no Youtube, fazendo sozinho boa parte de todo processo (desenhos, vozes, som, edição) e praticamente com custo zero.

 

Marcelo Marão
Em uma divertida entrevista o animador Marcelo Marão (RJ) conta-nos sobre o seu inicio em meio a acetatos e trucas, os trabalhos para publicidade e a história da polêmica, maldita, amaldiçoada série de curtas Engolerviha. Para a realização destes curtas Marão costuma encomendar a alguns animadores que atuam em publicidade (sempre pressionados e limitados pelos rigores exigidos pelos clientes) que criem livremente peças de até um minuto e que sejam bizarros. O resultado é que os animadores, que sempre têm que produzir desenhos fofinhos, aproveitam a ocasião para soltar seus demônios.  Trata-se, vamos dizer, de uma experiência de catarse.

Muito legal ele descrever as reações de quem assistiu ao primeiro Engolervilha:
“Tomara que você vá à falência pra nunca mais fazer algo desse tipo.”
“Esse filme vai arruinar sua carreira e é bem feito, pra você aprender!”
Até que alguém sugeriu: “Por que você não faz outro?

A conversa segue com a discussão comercial X experimental (e as “pressões” para que ele utilize tal e tal ferramenta “mais moderna” ao invés de seu “antiquado lápis e papel”. Por fim, a militância na ABCA e as transformações ocorridas nos últimos anos na produção e fomento da animação no Brasil.

Se alguém, em 2001, falasse que queria fazer uma série de animação, você estaria maluco. Seria o rebelde! Ninguém fazia aquilo, não existia aquilo no Brasil. E só porque não era uma coisa que ninguém fazia no momento. A única maneira de avançar, e até para a indústria existir, tem que ter essa postura e existirem esses caras malditos.”

 

Maurício Squarisi
Maurício Squarisi (SP) fala sobre os 40 anos de atividades e as centenas de oficinas ministradas, junto com Wilson Lazaretti, pelo Núcleo de Cinema de Animação de Campinas. Muitas destas oficinas foram realizadas em Super-8, 16 mm, 35 mm, quando precisavam levar um pequeno laboratório para revelar os filmes nos mais distantes locais do país.

Sobre as oficinas com e para crianças, ele diz:

Quando realizamos oficinas de animação com crianças vejo dois lados. De um lado levamos às crianças uma nova ferramenta de comunicação e expressão, principalmente quando trabalhamos em regiões menos favorecidas socialmente (o que é o caso da maioria). Percebemos que não é somente o conhecimento do desenho animado que essas crianças adquirem, notamos que melhora sua autoestima. De outro lado acredito que trazemos para o mundo da animação o olhar diferenciado dessas crianças, que, por terem uma experiência de vida diferente, seus trabalhos refletem essa vivencia.”

A seguir um dos muitos trabalhos que resultaram de oficinas com crianças e adolescentes. Neste em especial tive a oportunidade de atuar como monitor junto a crianças e jovens da região do Pelourinho.

Título: SONHO DE NATAL  (2007 , 1’44”)
Autores: Adolescentes do Pelourinho / Salvador / Bahia
Sinopse: Para a criança que dorme na praça, o Gari vira Papai Noel…

 

Otto Guerra
O mítico animador gaúcho Otto Guerra fala sobre sua vasta carreira.  O processo de produção e repercussão de seus trabalhos desde o início dos anos 80. Entre eles, O Natal do Burrinho (1984), a história do nascimento de Jesus pela visão do burrinho, curta produzido nas horas vagas com o dinheiro ganho com trabalhos publicitários. Em 1994, o primeiro longa, Rocky & Hudson – os Caubóis Gays, baseado nas tirinhas gay de Adão Iturrusgarai.

Há também relatos sobre o período tenebroso quando a produção cinematográfica brasileira praticamente parou, mas sempre havia um curta de Otto Guerra participando dos festivais. Conta também a dificuldade que sentiu para fazer a transição do analógico para o digital:

… eu tive que aprender a usar o computador, fiquei viciado em Doom, aquele jogo de 3D.   Foi através dele que eu vi que o computador era uma coisa boa, não era coisa do cramulhão.”

Ele fala sobre a chegada de Marta Machado para trabalhar especificamente na produção, a parceria que deu à Otto Desenhos um salto de qualidade, saindo da publicidade para focar na produção cultural.

Em um trecho muito engraçado Otto descreve como aconteceu o inusitado encontro com Maurício de Sousa. Mais adiante comenta o longa lançado em 2014, Até Que a Sbórnia nos Separe, e o novo longa baseado na obra de Laerte, Cidade dos Piratas.

Novela (1992 | 8 min)Uma sátira às telenovelas brasileiras, que mantém as mesmas histórias recheadas de dramalhões, intrigas, filhos bastardos e amores proibidos. Realizado em 1992, mas sempre atual.

Still
Podemos dizer (com todo o respeito e de modo positivo) que Still (RJ) é um avô dos dinossauros da animação brasileira. Podemos dizer também que é uma enciclopédia viva. Ele fala sobre o Grupo Fotograma, que em 1968 e 1969 realizou mostras de animação no MAM-RJ e chegou a produzir um programa de TV, o Experiência 68, além dos diversos curtas que realizou. São dele também as vinhetas de abertura de vários programas da Rede Globo nos anos 70 e 80, como Satiricom, Faça Amor, Não Faça Guerra, Armação Ilimitada e Domingão do Faustão..

A seguir o curta Asdrúbal, o que é que há com seu perú? (1978). O personagem-título é o zelador de um zoológico,


Asdrúbal, O que há com seu peru por pestilpen

 

 

Wilson Lazaretti
Fundador do Núcleo de Cinema de Animação de Campinas, Wilson Lazaretti (SP) fala sobre o surgimento do Núcleo, em 1975, que já tem mais de 2 mil oficinas realizadas. Grande parte das oficinas é direcionada para crianças, em que elas são autoras do filme, desenvolvendo roteiro, grafismo, animação e trilha sonora. Lazaretti fala também sobre a produção de brinquedos óticos e o acervo com cerca de 300 filmes em diversos suportes e bitolas.

Comenta os dois longas finalizados pelo Núcleo: História Antes de uma História, dirigido por Wilson, e, Café – Um Dedo de Prosa, com direção do grande parceiro Mauricio Squarisi.

 

 

 

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